Setor produtivo de MG destaca efeitos nocivos do fim da taxa das blusinhas
Fiemg afirma que indústria nacional precisa competir em condições equilibradas com os produtos importados. Fecomércio analisa efeitos nas vendas de tecidos, vestuário e calçados
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O setor produtivo de Minas Gerais, mais especificamente a Indústria e o Comércio, tem se mostrado incomodado com a iminente definição pela extinção da “taxa das blusinhas", pauta que será apreciada pelo Congresso Nacional na próxima semana.
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Um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, e Davi Alcolumbre, presidente do Senado, nesta quarta-feira (26/8), definiu que esta e outras pautas governistas serão votadas entre 31 de agosto e 4 de setembro.
A “taxa das blusinhas” foi criada pelo governo Federal em 2024, estabelecendo um imposto de importação de 20% sobre remessas postais internacionais de até US$ 50. No entanto, medida provisória editada pelo próprio governo em meados de maio zerou temporariamente a cobrança. Como a MP 1.357/2026 perde a validade em 8 de setembro, quer uma definição definitiva dessa medida, que foi muito impopular.
Sobre uma possível aprovação desta pauta, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) alertou sobre a redução da competitividade da indústria nacional frente aos produtos importados comercializados por plataformas internacionais de comércio eletrônico.
Para a entidade, essa discussão deve considerar os impactos sobre as empresas brasileiras, que “enfrentam uma estrutura de custos elevada para produzir, investir e gerar empregos no país”.
De acordo com a Fiemg, em junho, o primeiro mês completo após a MP ter zerado a cobrança do imposto, foi identificado um forte crescimento das operações realizadas pelo programa Remessa Conforme. Nesse mês, o valor das vendas registradas alcançou R$ 2,6 bilhões, crescimento de 101% em relação a junho de 2025 e de 37% na comparação com maio.
A Fiemg destacou que a ampliação das vantagens tributárias para produtos importados cria uma competição desequilibrada com as empresas instaladas no Brasil, que estão submetidas a custos tributários, trabalhistas, regulatórios e de conformidade para manter suas operações.
Para a Fiemg, esse cenário pode comprometer a produção nacional, os investimentos e a geração de empregos ao longo das cadeias produtivas. Assim, os impactos não vão se restringir ao comércio eletrônico, mas alcançar setores produtivos mais expostos à concorrência internacional.
“A indústria nacional precisa competir em condições equilibradas com os produtos importados. Quando há uma diferença nas regras aplicadas aos fornecedores estrangeiros e às empresas que produzem no Brasil, há impactos sobre investimentos, empregos e sobre a capacidade da indústria de continuar gerando valor para a economia brasileira”, analisou Juliana Gagliardi, coordenadora da Gerência de Economia da Fiemg.
Importação impacta produção nacional de tecidos, vestuário e calçados
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Minas Gerais (Fecomércio MG) fez uma análise das vendas de tecidos, vestuário e calçados no Brasil e em Minas Gerais usando como referência os períodos de vigência ou não da “taxa das blusinhas”.
Os resultados desse estudo são compatíveis com a hipótese de que a cobrança iniciada em agosto de 2024 tenha reduzido temporariamente parte da vantagem de preço dos produtos importados e contribuído para um ambiente de concorrência mais equilibrado para o varejo estabelecido no país. Já em 2026, a partir da flexibilização das regras tributárias, houve uma nova aceleração das remessas internacionais e o aprofundamento das perdas no segmento de moda.
“O que o estudo coloca em evidência é que a discussão sobre as compras internacionais de pequeno valor vai muito além do preço de um produto. Estamos falando de condições de concorrência que alcançam empresas, trabalhadores, fornecedores, indústria e toda uma cadeia produtiva que gera renda e movimenta a economia brasileira”, afirmou Fernanda Gonçalves, economista da Fecomércio MG.
Para ela, a vantagem concedida às plataformas estrangeiras tende a deslocar a demanda para fora do país, comprometendo tanto a neutralidade concorrencial quanto a sustentabilidade do setor. A economista acredita que negligenciar esse diagnóstico pode penalizar a produção nacional, corroer investimentos e transferir renda e empregos para o exterior.
Números indicam relação
De acordo com a Fecomércio MG, entre janeiro e julho de 2026, os produtos enviados ao Brasil pelo Programa Remessa Conforme movimentaram R$ 12,16 bilhões, frente a R$ 8,25 bilhões registrados no mesmo período de 2025. O crescimento foi de aproximadamente 47,4%. A média mensal também aumentou de forma significativa: de R$ 1,18 bilhão nos sete primeiros meses de 2025 para R$ 1,74 bilhão no mesmo intervalo de 2026.
Isolando os meses de maio – quando, no dia 12, a MP retornou com a isenção da taxa das blusinhas –, junho e julho, os avanços foram mais expressivos: 42,9% em maio, 100% em junho e 71,3% em julho.
Já no início da taxação, em agosto de 2024, as remessas internacionais chegaram a cair 40,9%. Enquanto no bimestre anterior à cobrança, junho e julho de 2024, o Programa Remessa Conforme somou R$ 3,13 bilhões, o valor movimentado em agosto e setembro caiu para R$ 1,85 bilhão.
Segundo a Fecomércio, o movimento de redução prosseguiu nos meses seguintes, indicando uma mudança de patamar nas compras internacionais realizadas pelo programa. Ao longo de 2025, os valores das remessas permaneceram abaixo do nível observado antes de agosto de 2024. Nesse mesmo período, a atividade de tecidos, vestuário e calçados apresentou recuperação.
Em Minas Gerais, o segmento iniciou 2024 em forte retração, acumulando queda de 12,7% no volume de vendas acumulado em 12 meses, enquanto o comércio varejista mineiro apresentava crescimento de 2,9%. A recuperação ocorreu progressivamente ao longo dos meses seguintes, sendo que em agosto a retração diminuiu para 3,5% em agosto, quando entrou a cobrança do imposto.
Em novembro, o acumulado do setor passou para 1% positivo e encerrou dezembro com crescimento de 4,2%, acima dos 3,3% observados no varejo mineiro como um todo. O desempenho positivo ganhou força em 2025. Em maio e junho, por exemplo, o segmento de tecidos, vestuário e calçados registrou crescimento de 6,6% em Minas Gerais, enquanto os resultados nacionais foram de 5% e 5,5%, respectivamente.
Depois de iniciar 2026 praticamente estável, com crescimento de 0,1% em janeiro, a atividade passou a registrar sucessivas quedas. Em junho, a retração acumulada em 12 meses chegou a 4,4% em Minas Gerais, enquanto, no Brasil, o recuo foi de 1,2%. O estudo destaca que o enfraquecimento já havia começado antes da flexibilização tributária de 2026. Entretanto, o aprofundamento das perdas nos meses seguintes é compatível com a hipótese de que o aumento da atratividade dos produtos importados tenha ampliado a pressão concorrencial sobre o varejo nacional.
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Cadeia da moda é importante para a economia mineira
Esses efeitos são particularmente preocupantes para Minas Gerais, já que a cadeia da moda possui participação superior à observada na média nacional. O setor representa aproximadamente 5,2% dos estabelecimentos mineiros, frente a 4,4% no Brasil. O segmento também responde por cerca de 15% dos estabelecimentos comerciais do estado, contra aproximadamente 13,6% na média nacional.
O estado também reúne 18 Arranjos Produtivos Locais (APLs) ligados à moda, distribuídos por 87 municípios, que concentram aproximadamente 67 mil empresas formais e cerca de 80 mil empregos diretos. Essa estrutura envolve comércio varejista, confecções, calçadistas, indústria têxtil, fornecedores e pequenos negócios, formando uma cadeia produtiva altamente integrada.
De acordo com a Fecomércio, entre os principais polos estão: o vestuário da Região Metropolitana de Belo Horizonte, com cerca de 23 mil empregos diretos; o setor calçadista de Nova Serrana, com aproximadamente 17 mil; o vestuário de Divinópolis, com 12 mil; além de polos em São João Nepomuceno, Jacutinga, Muriaé e Juiz de Fora.
“Em Minas Gerais, falar de moda significa falar de milhares de pequenos negócios e de dezenas de milhares de postos de trabalho espalhados por diferentes regiões. O desempenho de uma loja está conectado à confecção, à indústria têxtil, ao calçado, aos fornecedores e a uma extensa rede de serviços. Por isso, oscilações nesse mercado produzem efeitos que vão muito além do varejo”, destacou Fernanda Gonçalves.