Sinais no prato
Pratos menores e apreço pela proteína são possíveis consequências do crescimento do uso de canetas emagrecedoras com reflexos em bares e restaurantes
compartilhe
SIGA
É indiscutível a força com que as canetas emagrecedoras entraram em nossas vidas e como, cada vez mais, se tornaram habituais. Segundo estudo da Scanntech, houve um crescimento de 239% no uso desses medicamentos no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do último ano. Esse crescimento tem gerado reflexos em diversos setores, que vão muito além da saúde em si; já há sinais de um redesenho do consumo global.
Se o medicamento reduz o apetite, é quase intuitivo pensar que o setor da alimentação seria – ou será – fortemente afetado. Desde janeiro deste ano, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) alerta para possíveis mudanças no comportamento e consumo em bares e restaurantes em detrimento das canetas emagrecedoras.
Em levantamento publicado em abril de 2026, a associação constatou que 61% dos empresários do setor já perceberam mudanças associadas ao uso de remédios como Ozempic e Mounjaro. Apesar de parecer alarmante, nesse número estão implícitas mudanças leves e moderadas – como a diminuição de pedidos de pratos principais ou sobremesas.
Outro ponto importante no debate – que pode ter alavancado ainda mais o uso das canetas emagrecedoras – é o fim da patente da semaglutida – princípio ativo de alguns desses medicamentos, inclusive do famoso Ozempic – que expirou no Brasil no dia 20 de março deste ano.
Para Marcílio Alves, estrategista de branding e consultor de marketing, a quebra da patente nos levou para uma nova fase, de mudança de comportamento “pós-caneta”. “Por mais que o valor ainda não seja acessível, já é mais do que era antes. Vejo o uso sendo normalizado”, conta.
Leia Mais
E essa normalização para a qual o especialista chama a atenção pode ser reforçada pelo que se observa no Righi Gastronomia, espaço que serve, às quintas e sextas no Bairro Prado, na Região Oeste de BH, menus degustação. À frente da casa, está o casal Yzabella e Guilherme Righi. Ambos dizem sentir uma intensificação no número de clientes que usam as canetas desde o início de 2026.
“Em geral, as pessoas comem tudo, mas quem usa a caneta muitas vezes já avisa logo no início o porquê de não fazer isso”, comenta Guilherme, destacando que as pessoas evitam qualquer constrangimento deixando claro que o prato não volta para a cozinha por questões além do que o remédio causa.
Porções menores
Por perceberem que, além do aumento no uso desse medicamento, as pessoas já vêm comendo cada vez menos, sobretudo à noite, os dois colocaram, no novo menu as quintas, intitulado Prado (R$ 290, por pessoa), que inicia no próximo dia 9 de julho, dois tempos a menos. “O menu de sexta-feira já é um pouco menor, mas quem usa a caneta se sente cheio em ambas as situações”, reforça o chef.
Apesar disso, é interessante e curioso como, mesmo em um espaço voltado à degustação – onde se come um pouco mais que casas à la carte normalmente – pessoas que usam as “canetinhas” continuam frequentando. “Acredito que não estão abrindo mão também da função social do restaurante, e as pessoas já chegam aqui sabendo como funciona”, enfatiza Guilherme.
Em festas e eventos no geral, o consumo também vem mudando. Gabriela Gontijo, que comanda o buffet A Chef ao lado de Bruna Costa, diz perceber uma mudança “nichada” no consumo, que pode inclusive ser associada ao gênero e bairro onde o evento é realizado.
Quando são contratadas para celebrações em bairros como Belvedere, na Região Centro-Sul de BH (segundo dados de 2022 do IBGE, o bairro de maior renda mensal da capital mineira) em que a maior parte dos convidados é formada por mulheres, elas já enxergam que o menu pode ser reduzido. Aqui, se evidencia o fato de o remédio ainda ser mais restrito a uma faixa da população de maior poder aquisitivo.
“Há casos em que a cliente até já fala que a maioria dos convidados está na ‘canetinha’”, conta Gabriela, chamando a atenção ainda para a importância de entender quando de fato há a possibilidade de adaptar o menu levando isso em consideração. “Quando é um evento mais misto ou corporativo, isso é menos perceptível. Ocasiões como casamentos também, onde as pessoas ficam por muito tempo em uma cerimônia, os convidados tendem a comer mais, então não podemos reduzir a quantidade significativamente.”
Império da proteína
Referência em carnes, o restaurante Porcão, no São Bento, Região Centro-Sul da capital mineira, vem recebendo clientes que usam as “canetinhas”. E, se num primeiro momento isso poderia soar alarmante, conforme explica Fernando Júnior, diretor do estabelecimento em BH, posteriormente evidenciou um diferencial da casa. “Era uma preocupação, porque trabalhamos com o rodízio, mas começamos a perceber que as pessoas estão mais em busca de proteínas de qualidade.”
Tendo isso em vista, a casa lançou a Parrilla, formato bem diferente do tradicional rodízio, em que o cliente escolhe cortes de 150g preparados na brasa e recebe uma refeição completa, acompanhada por saladas e guarnições que podem ser mais leves, como a opção dos legumes salteados. São diversos cortes de carne vendidos por a partir de R$ 39,90 com dois acompanhamentos à escolha do cliente.
Novidade no menu
Restaurantes a la carte e self-services traçam estratégias para agradar diversos perfis de clientes, com destaque para versões mini e cada vez mais personalizadas
Diariamente, o restaurante Roça Grande, no Lourdes, Região Centro-Sul de BH, serve pratos feitos (nos tamanhos pequeno, médio e grande) com ingredientes orgânicos que seguem a cultura alimentar da roça.
À frente da cozinha, a chef Mariana Gontijo vem percebendo o aumento na venda do prato pequeno. “Eu já tinha sentido essa demanda com o público bariátrico. É interessante que eles costumam falar o porquê de comerem menos, enquanto quem usa a caneta, não anuncia tanto”, comenta a chef.
E como tem gente que acha a porção pequena grande, Mariana acabou de lançar uma versão ainda menor – PP ou “pititinho” do prato do Roça Grande (R$ 29,90). “Eu mesma prefiro comer um prato menor que não seja ‘fitness’, do que uma refeição cheia de agrotóxicos e com ingredientes questionáveis”, declara.
Uma das lutas da chef é justamente valorizar a comida da roça, em que “a carne é um elemento do prato como qualquer outro”. Nesse sentido, ela busca explorar e evidenciar outras proteínas que vão além das fontes animais – como o próprio arroz com feijão e o ora-pro-nóbis. “Tentamos trabalhar de forma educativa que proteína não é só carne”, comenta, destacando ainda a questão ambiental ligada ao consumo excessivo de carnes.
Tamanho subjetivo
Enquanto casas lançam novos tamanhos de porções, restaurantes self-service já oferecem, desde sempre, a possibilidade de pratos totalmente personalizados – em termos de tamanho e componentes.
Carolina Moretzsohn, no comando do restaurante Magnólia, no Bairro Boa Viagem, na Região Centro-Sul de BH, reforça justamente essa vantagem do serviço. “No quilo, a pessoa pode comer e pagar menos, além de montar o prato da maneira que quiser.”
Isso, aliás, também pode refletir em porções menos equilibradas do ponto de vista nutricional. “Vejo pessoas comendo menos e fazendo escolhas piores”, comenta, destacando pratos pouco coloridos e com grande quantidade de massas, por exemplo
No Magnólia, Carolina não sente na produção e no consumo uma possível consequência forte do uso das canetas – até mesmo por oferecer uma variedade de preparos enorme e ser mais difícil visualizar esse tipo de mudança. O que ela observa de fato são pratos individualmente menores – que inclusive são recorrentemente escolhidos para compensar a opção por uma sobremesa.
Prato infantil
Carolina também está à frente do restaurante Café do Museu, no Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB, na Região da Savassi. Lá, o cliente escolhe sua carne e conta com um rodízio de acompanhamentos. Apesar de não sentir mudanças de consumo nesse serviço específico, a chef e proprietária diz que a venda do prato infantil para adultos aumentou na casa.
Marcílio Alves já sinalizou que o “prato kids poderia ser o novo prato da caneta”. o porém aqui é que, além do tamanho reduzido, a porção destinada às crianças normalmente leva em conta um paladar mais infantil, ou seja, explora menos sabores e se baseia normalmente no arroz, feijão, carne e batata frita.
Adaptação no menu
Para atender uma população que vem comendo menos, uma estratégia possível para que restaurantes não diminuam o faturamento é uma adaptação no menu. Conforme explica o estrategista de branding Marcílio Alves, essa mudança de comportamento que acompanhamos não tem relação com menos saídas, mas sim, menos quantidade de comida. “As pessoas não deixaram de ir aos locais, só passaram a consumir de forma diferente.”
Marcílio, que trabalha com restaurantes e bares no Brasil mas também no exterior, destaca, por exemplo, o investimento de casas em cartas de sobremesa mais completas – já que, em muitos casos, os clientes estão optando por consumir entradas e doces e pular pratos principais.
A diminuição no tamanho de pratos, aliás, é outra estratégia que vem sendo usada. Para agregar valor e inclusive manter a receita, casas também podem apostar em produtos mais “premium”, de acordo com o que explica Marcílio. “É interessante trazer essa diferenciação trazendo um ganho pelo incremento de valor. O importante é que a margem esteja alinhada ao que o restaurante constrói em termos de narrativa”, enfatiza.
Serviço
Righi Gastronomia
• Rua dos Pampas, 145, Prado
• (31) 99803-7675
• Quinta, das 20h às 23h
• Sexta, das 19h às 23h
A Chef
• Rua Pedra Bonita, 45, Prado
• (31) 97111-2332
• @achefcatering
Porcão
• Avenida Raja Gabáglia, 2671, São Bento
• (31) 3293-8787
• De segunda a quinta, das 12h às 15h30 e das 18h30 às 23h
• Sexta e sábado, das 12h às 23h
• Domingo, das 12h às 18h
Roça Grande
• Rua São Paulo, 1743, Lourdes
• (31) 99119-4739
• De segunda a sexta, das 9h às 17h
• Sábado, das 9h às 16h
Magnólia
• Rua Sergipe, 314, Boa Viagem
• (31) 3291-5320
• De segunda a sexta, das 11h30 às 15h
• Sábado e domingo, das 12h às 16h
Café do Museu
• Praça da Liberdade, 450, Savassi
• (31) 3292-5208
• Segunda, das 11h30 às 22h
• De quarta a sábado, das 11h30 às 22h
• Domingo, das 11h30 às 21h30
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
* Estagiária sob supervisão da editora Ellen Cristie