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A democrática batata frita brilha em carreira solo

Antes vista só como acompanhamento de hambúrguer ou filé na chapa, batata frita vira protagonista na mesa

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Com filé, mexilhões, hambúrguer… De tanto acompanhar clássicos, parece que a batata palito finalmente investiu na carreira solo. Não que as fritas tenham deixado de ser ótimas coadjuvantes, mas é inegável que elas vêm assumindo protagonismo em cardápios de Belo Horizonte e do mundo.

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A batata frita se tornou uma espécie de tela em branco, na qual chefs exploram a criatividade, sazonalidade e imprimem a identidade de seus restaurantes. De modo geral, o tubérculo funciona literalmente como uma base para os outros ingredientes, que incrementam o prato com sabores e texturas.

No Fuga, bar no Bairro Carmo, Região Centro-Sul de BH, a batata frita foi escolhida para compor o menu por, entre outras razões, ser bastante democrática. “A gente sempre quis ter itens mais democráticos para atender a todos. Queríamos ter pratos que fizessem jus ao nosso status de bar. Temos, por exemplo, linguiça, mandioca e batata no menu. São clássicos da botecagem brasileira”, explica Pedro Cunha, chef da casa.

Ele destaca que essas bases culturais da nossa boemia recebem nova roupagem no Fuga. A clássica batata frita, por exemplo, é coberta com creme azedo, pernil e torresmo (R$ 48). “A ideia é que a carne lembre um pernil de chapa mesmo. Fazemos um refogado com coentro, cebola, alho, pimenta-de-cheiro e outros ingredientes”, explica, destacando, ainda, um sabor especial advindo do caldo do kimchi (fermentado coreano de acelga), que também é usado no preparo.

O pernil aparece para remeter à cultura gastronômica mineira e o torresmo para levar crocância. “Acho que o pernil e o torresmo combinam bem”, conta Pedro. O creme azedo, por sua vez, além de quebrar um pouco a gordura da batata e das carnes de porco, umedece o prato. “A gente traz um molho, mas foge da clássica maionese com batata.”

Volta e meia, os clientes do Fuga podem degustar pratos especiais que não compõem o cardápio fixo. Um deles – que deve aparecer entre essas opções em breve – é uma batata frita com vôngole e mexilhões. A base é a clássica batata da casa coberta com um refogado de nduja (salame de porco típico da Calábria, Sul da Itália), alho assado, cebola, mexilhões e vôngole. O molho que acompanha é feito com creme de leite, nduja e caldo de boi.

Quando surge no Fuga, essa versão de “moules et frites” (clássico francês que une mexilhões e batatas fritas) faz muito sucesso. Ela é vendida a R$ 78.

Tempero especial

Pernil e torresmo: ícones da boemia mineira aparecem por cima da porção do Fuga
Pernil e torresmo: ícones da boemia mineira aparecem por cima da porção do Fuga Fuga/Divulgação

Apesar de parecer simples, a batata requer cuidados. No Fuga, por exemplo, ela é toda feita na casa. Depois de higienizada e picada, ela fica na água com vinagre por 12 horas. Depois, é preciso secá-la, fazer uma pré-fritura e congelá-la. Quando o cliente faz o pedido, ela passa por outra fritura, direto do congelador.

Outro segredo está no tempero. Diferentemente do que pode parecer, não é apenas sal. Pápricas, pimentas e até um toque de limão deixam o tubérculo ainda mais saboroso. “Conseguimos pegar todos os pontos do paladar”, completa Pedro.

O mais pedido

A chef Yasmin Oliveira, do Baixaria, teve a ideia de adicionar molho de alho assado ao cupim
A chef Yasmin Oliveira, do Baixaria, teve a ideia de adicionar molho de alho assado ao cupim Marcos Vieira/EM/D.A Press

Cupim e molho de alho assado cobrem as batatas fritas (R$ 52,90) do bar Baixaria, no Centro de BH. O prato, como explica André Carvalho, sócio da casa, nem sempre esteve no menu. “Por termos uma cozinha bem autoral, ficávamos um pouco receosos de colocar batata frita no cardápio, mas é um prato que sempre foi muito pedido, que serve crianças, vegetarianos, veganos...”

Desde que passou a compor o cardápio do Baixaria – há cerca de dois anos –, a batata se tornou o prato mais pedido. Há alguns meses, o preparo passou por adaptações pontuais. Basicamente, a apresentação foi alterada e o molho de alho foi adicionado. Tudo isso veio como um toque da chef da casa, Yasmin Juliana Oliveira.

O cupim, corte que já foi desvalorizado e vem ganhando um espaço cada vez maior na gastronomia, tem simbolismo para o bar. “Já trabalhamos com essa carne em outros preparos [hoje, ela está também na porção de bolinhos fritos acompanhados de maionese verde]. Investimos nela desde o início do Baixaria”, comenta André, ressaltando também como a batata – já muito consolidada entre todos os públicos – pode ser um chamariz para que mais pessoas degustem produtos como o cupim.

Batata fermentada

Fermentada, a batata do Cais é servida com maionese de manteiga queimada e limão
Fermentada, a batata do Cais é servida com maionese de manteiga queimada e limão Cais/Divulgação

A batata frita fermentada (R$ 32) do Cais, bar inaugurado em novembro no Santa Tereza, Região Leste de BH, reforça ainda mais o protagonismo do tubérculo sem o uso de muitos toppings. O prato conta, além da batata, com uma maionese de manteiga queimada e limão. Por cima, um pozinho preto que parece pimenta-do-reino ralada, mas é nada mais nada menos que limão negro feito na casa.

“Fermentamos o limão por 10 dias, secamos no forno em baixa temperatura e depois trituramos. Essa é uma receita tradicional dos persas”, explica Carol do Carmo, chef da casa e especialista em fermentação. É a história dela com esse processo, aliás, que resultou nesse prato.

Antes de abrir o Cais como sócia, ela morava em Trancoso (BA) e fez, em casa mesmo, uma batata frita fermentada – acredite, ou não – em água do mar.

“Além de ter o teor praticamente exato de sal para a fermentação, a água do mar tem outros sais minerais que, inclusive, ajudam a deixar a batata mais crocante”, detalha, destacando que, quando fez o teste e publicou nas redes sociais, viralizou. “Fiquei com essa história na cabeça e com a certeza de que, quando abrisse um negócio, teria uma batata fermentada”.

No Cais, o tubérculo fermenta por dois dias em uma mistura de água e levain (fermento muito usado na panificação). Isso, segundo a chef, deixa o interior das batatas mais folhado e o exterior crocante. Depois do processo de fermentação, as batatas são pré-fritas e congeladas. A última fritura é em temperatura mais elevada e ocorre quando o pedido é feito pelo cliente.

Em breve…

Ovo, guanciale e queijo formam a espuma que leva sabor para o prato do novo Duplex
Ovo, guanciale e queijo formam a espuma que leva sabor para o prato do novo Duplex Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press

No fim deste mês, o Centro de BH deve ganhar uma operação para lá de especial. O Duplex, comandado pelos chefs Caio Soter e Rafael Brito, chega com uma proposta focada em cafés, vermutes e cardápio de brunch (apesar de ter itens pensados para a noite também).

Um dos pratos mais noturnos é justamente a porção de batatas fritas (as mesmas que fazem sucesso no Nimbos, Pacato e Pirex, casas do mesmo grupo). Inicialmente, conforme explica Caio Soter, as batatinhas iriam apenas acompanhar um clássico sanduíche. “Nossa ideia é ser uma casa cosmopolita, então vamos servir um 'club sandwich' [invenção norte-americana que combina pão, frango, alface, tomate, bacon e maionese] com as batatas”.

A versão das fritas à carbonara veio depois. “O creme de carbonara, com ovo, queijo e gordura de porco, é um dos meus molhos favoritos. E batata com ovo é maravilhoso. Com bacon, então, apesar de aqui usarmos o guanciale, é mais gostoso ainda”, defende o chef.

Combinar sem ofuscar

Para o chef, a batata perfeita deve ser “crocante, mas ainda com um purezinho no meio” e acompanhada de algo que combine com ela, mas que não se sobressaia tanto. “A batata não deve ser necessariamente transformada em um ‘veículo’ [apenas transportando sabores], ela deve ser complementada, combinada com outros sabores.”

No Duplex, a porção de batata frita com espuma de carbonara poderá ser servida com guanciale (bochecha de porco curada) ou com o chamado “bacon de cogumelo” para os vegetarianos. O preparo nada mais é do que o fungo desidratado mas, na opinião de Caio, é tão gostoso quanto o guanciale nessa receita.


Um cardápio só de batatas
Já imaginou batata frita com kimchi? Uma das opções do Nimbos tem acelga fermentada
Já imaginou batata frita com kimchi? Uma das opções do Nimbos tem acelga fermentada Victor Schwaner/Divulgação

Nem duas, nem três e nem quatro. O Nimbos, bar de hambúrgueres na Região da Savassi, tem cinco versões de batata frita. Uma razão por trás disso, certamente, é o enorme sucesso da clássica batata da casa (R$ 35), servida desde 2017.

“Naquela época, não era tão comum assim achar batatas caseiras. Acho que por isso nós ficamos conhecidos por ela”, conta o chef Luli Moreira. Ele também explica que, em 2024, quando o Nimbos foi reaberto com o intuito de ser um boteco de hambúrguer, houve uma preocupação maior com porções para compartilhar. “Daí veio a ideia de criar um cardápio inteiro de batatas, usá-las como telas em branco.”

“Loaded fries”

Do inglês, as “loaded fries” podem ser traduzidas literalmente como “batatas fritas carregadas”. Como o nome sugere, são preparos com base de batatas palito que, por cima, recebem diversos molhos e ingredientes que agregam sabor.

Essa foi a linha que Luli optou por seguir no menu de batatas do Nimbos. Inclusive, há algumas versões que surgiram inspiradas pelos hambúrgueres da casa. Esse é o caso da Fritas Shablei (R$ 52), com requeijão de corte, rúcula, cebola caramelizada, mel e bacon.

O tradicional cheeseburger nomeia outra batata (R$ 48), que leva queijo cheddar, picles de pepino, hambúrguer “batidinho” (em pedaços), cebola e maionese. Os amantes de kimchi encontram no Nimbos não só um hambúrguer, mas também uma porção de batatas com a acelga fermentada. O preparo complementa as batatas ao lado de requeijão de corte e maionese (R$ 52).

A última variação da batata, com pegada alemã, é a Nimbowurst (R$ 42), feita com salsicha bratwurst (de carne de porco), catchup de curry e vinagrete de pimenta jalapeño. “Ela surgiu de uma porção dessa salsicha que a gente vendia sem a batata.”

Produção diária

Inspirada no hambúrguer mais famoso da casa, a Shablei une requeijão de corte, rúcula, cebola caramelizada, mel e bacon
Inspirada no hambúrguer mais famoso da casa, a Shablei une requeijão de corte, rúcula, cebola caramelizada, mel e bacon Victor Schwaner/Divulgação

Luli acredita que um grande diferencial da batata do Nimbos tem relação com a sua produção diária (elas não são congeladas). “As batatas são cortadas, vão para uma salmoura, são pré-fritas, resfriadas e fritas novamente.”

Hoje, tudo isso é feito numa cozinha central de produção, que atende não só o Nimbos, mas também o restaurante Pacato, o bar Pirex e, em breve, o Duplex, todos do mesmo grupo. Para suprir o consumo em todas essas casas, eles usam mais de uma tonelada do tubérculo mensalmente.

Anote a receita: batata frita com cupim desfiado do Baixaria

Batata frita com cupim desfiado do bar Baixaria
Batata frita com cupim desfiado do bar Baixaria Marcos Vieira/EM/D.A Press

Ingredientes:

  • 250g de cupim;
  • 1 colher de sopa de cenoura picada;
  • 1 colher de sopa de pimentão vermelho picado;
  • 1 colher de sopa de pimentão verde picado;
  • 1 colher de sopa de cebola picada;
  • ½ colher de chá de sal;
  • 1 pitada de pimenta-do-reino;
  • ½ colher de chá de páprica defumada;
  • ½ colher de chá de colorau;
  • Água suficiente para cobrir a carne;
  • 220g de batata frita congelada;
  • Óleo (o quanto baste para fritar a batata);
  • Sal e páprica a gosto.

Modo de fazer:

  • Em uma panela de pressão, refogue os legumes até começarem a murchar.
  • Adicione o cupim e cubra com água.
  • Tempere com sal, pimenta, páprica e colorau.
  • Tampe a panela e, após pegar pressão, cozinhe por aproximadamente 20 minutos, ou até que a carne esteja bem macia e no ponto de desfiar.
  • Retire o cupim da panela, desfie e reserve-o com um pouco do caldo para que se mantenha suculento.
  • Frite as batatas pré-fritas congeladas em óleo quente.
  • Adicione sal e páprica a gosto. Sirva as batatas com o cupim desfiado.

*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino

Serviço

Fuga (@fuga.bh)
Rua Outono, 486, Cruzeiro
De quarta a sábado, das 18h à 0h

Baixaria (@baixariabh)
Avenida dos Andradas, 367, 3º andar, loja 334, Centro
(31) 98837-8118
De segunda a quinta, das 17h à 0h; sexta, das 17h à 1h; sábado, das 15h à 1h

Cais (@cais_lab)
Rua Divinópolis, 215, Santa Tereza
De quarta a sexta, das 18h às 23h; sábado, das 12h às 19h; domingo, das 12h às 18h

Duplex (@duplex.bh)
Rua Santa Catarina, 214, 2º andar, Centro (Galeria São Vicente)
De quarta a domingo, das 9h às 19h (a partir do dia 30)

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Nimbos (@nimbosbar)
Rua Sergipe, 629, Savassi
De quarta a sábado, das 18h à 0h; domingo, das 17h às 23h

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