LUTO NAS LETRAS

Zuenir Ventura "era o jornalista que todos queríamos ser"

O presidente da ABL resumiu numa frase a carreira de grandes entrevistas, furos jornalísticos e reportagens que se transformaram em livros de Zuenir Ventura

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Presidente da Academia Brasileira de Letras, Merval Pereira deu um depoimento certeiro sobre Zuenir Ventura. “Era o jornalista que todos queríamos ser. Era nosso espelho.” O acadêmico também se lembrou da série de qualidades do colega morto nesta terça (22/9), aos 95 anos. “Culto, generoso, era repórter e comentarista, editor e redator, chefe e orientador, intelectual e popular, professor e aluno.”


Zuenir foi responsável por reportagens e entrevistas essenciais sobre o Brasil, a partir da segunda metade do século 20. Recebeu o devido reconhecimento. Ganhou os prêmios Esso e Vladimir Herzog, em 1989, pela série "O Acre de Chico Mendes", publicada no Jornal do Brasil, e recebeu o segundo lugar na categoria reportagem do Jabuti de 1995 com "Cidade partida". Em 2008, foi um dos jornalistas a receber o Troféu Especial de Imprensa ONU, entregue àqueles que se destacaram na defesa dos direitos humanos na mídia.


Já passava dos 60 anos quando decidiu ir a campo como nenhum repórter, iniciante ou veterano, havia ido. Semanas após a chacina de Vigário Geral – 21 moradores foram executados por policiais militares, em 29 de agosto de 1993 –, deu início a um projeto que durou 10 meses. Passou uma temporada na favela horizontal, “um mundo de revelações, um acontecimento, um impacto”, afirmou ao Estado de Minas, em 2025.

Olhado com desconfiança pela comunidade traumatizada, Zuenir acabou ganhando a todos. De “burguês careca”, como foi chamado pelos moradores no início da empreitada, se tornou o “coroa responsa” e, finalmente, o “sangue bom”. A temporada, que redundou no livro “Cidade partida” (1994), teve como destaque a entrevista com Flávio Negão, então chefe do tráfico em Vigário Geral.


“Sem dúvida essa entrevista está entre as mais importantes que já fiz”, disse Zuenir. “Fui muito patrulhado por colegas jornalistas porque entrevistei um bandido. Fui criticado por outras pessoas também, porque achavam que eu estava dando voz ao criminoso. Só que essa atitude de afastar o mal, de não querer saber, não adianta”, acrescentou.


A lista de grandes entrevistas de Zuenir é extensa. No livro “Minhas histórias dos outros” ele escreveu sobre aqueles com os quais conviveu: Glauber Rocha, Antonio Callado, Antonio Candido, Tom Jobim, Nelson Rodrigues, Darcy Ribeiro e Betinho. Uma das histórias mais saborosas é de seu encontro com o maior dos poetas mineiros.


No final dos anos 1980, então diretor da sucursal carioca de “Veja”, Zuenir ficou sabendo que Carlos Drummond de Andrade gostaria de lhe conceder uma entrevista. Drummond, todos sabemos, era avesso a falar com repórteres. Zuenir chegou a desligar o telefone na cara do poeta quando este ligou para ele. Achou que era trote. Quando o encontro finalmente se concretizou, ouviu do itabirano: “Viu como o bicho não morde?”.


A história mais impressionante que o repórter Zuenir apresentou em “Minhas histórias dos outros” não envolve um personagem célebre. Genésio Ferreira da Silva tinha 14 anos quando presenciou o assassinato de Chico Mendes, em 22 de dezembro de 1988, em Xapuri, no Acre.


Testemunha-chave que levou à condenação dos assassinos, Genésio poderia ser morto se permanecesse na região. Por isso, Ventura decidiu, com permissão judicial, levá-lo para o Rio de Janeiro. No texto “A saga de uma testemunha”, ele narra sua relação com Genésio, que ficou em sua casa, no Rio, até completar 21 anos.

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