Artes visuais

Mostra em BH destaca o legado do pioneiro uruguaio Torres García

CCBB-BH exibe a maior exposição dedicada ao mestre do universalismo construtivo, que projetou mundialmente a arte da América do Sul

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O curador, pesquisador e produtor cultural Saulo di Tarso não hesita em dizer que a mostra dedicada a Joaquín Torres García (1874-1949) que será aberta nesta quarta-feira-feira (15/7), no CCBB-BH, é a maior já dedicada à obra do artista uruguaio. A exposição reúne cerca de 400 pinturas, desenhos, objetos, manuscritos e documentos históricos, além de trabalhos de uma centena de artistas que dialogam com o legado de Torres García.

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Depois de temporadas em São Paulo e Brasília, a mostra “Joaquín Torres García: 150 anos” encerra sua itinerância brasileira em Belo Horizonte, com novo recorte curatorial e conjunto inédito selecionado para esta etapa.

O curador Di Tarso explica que como a proposta é revelar aproximações formais, conceituais e simbólicas contemplando gerações e linguagens artísticas, a exposição é redesenhada a cada nova montagem. A produção de autores locais que dialogam com Torres García é incorporada ao conjunto em cada nova cidade.

Di Tarso informa que a mostra revê e redimensiona a importância do uruguaio, bem como consolida um novo capítulo da museologia brasileira. Vários trabalhos de García se perderam no incêndio ocorrido em 1978 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, onde estavam abrigados após passagem pela França e antes de retornarem ao país de origem.

“As obras circulavam em exposições em homenagem ao centenário do artista. Em função dessa perda trágica, o Brasil ficou décadas deslocado da confiança dos museus do mundo. Não conseguíamos fazer grande circulação de mostras internacionais”, diz o curador. O ciclo só foi rompido em 2002, quando o CCBB trouxe ao Brasil a retrospectiva de Rembrandt.

'Composição construtiva', obra de Joaquín Torres García, reúne vários signos, como setas e peixes, em vários quadrados, destacando as cores azul-marinho, vermelho, amarelo e branco
'Composição construtiva', obra de Joaquín Torres García de 1943 CCBB/divulgação

“A exposição dos 150 anos de Torres García é um virar de página, uma afirmação de mudança”, destaca Di Tarso. O uruguaio foi homenageado na Bienal de São Paulo de 2024, mas, de modo geral, sua presença no Brasil foi diminuindo ao longo dos anos.

“Não diria que ele ficou menos conhecido. Mas menos falado, portanto menos publicizado, ao passo que o reconhecimento de sua importância seguiu escala ascendente no resto do planeta” explica. Para o curador, a mostra em cartaz no CCBB-BH é uma “arrancada”, do ponto de vista histórico, no que diz respeito à valorização da arte sul-americana no espectro global.

Cercle Cerré

Trabalhando em parceria com a Fundação Torres García, em Montevidéu, e contando com a colaboração de museus e coleções no Brasil e no mundo, ele destaca que o uruguaio é grande pioneiro da arte do século 20, único artista do continente americano a iniciar um movimento internacional, o Cercle Carré, em Paris, no final da década de 1920. Ele e seu grupo promoviam a arte geométrica e construtivista em oposição ao surrealismo.

“Torres García voltou para Montevidéu em 1934, fazendo o arco do movimento de vanguarda que se iniciou na Europa, cruzou o oceano e foi concluído no Uruguai, diferentemente de nossos modernistas, que iam para lá estudar e voltavam para iniciar um movimento”, explica o curador.

Detalhe de obra de Joaquin Torres Garcia, em tons marrons, pretos e brancos, reúne desenhos de relógio, vasos e peixes
Joaquín Torres García, com sua abstração peculiar, se opôs ao surrealismo valorizando a arte geométrica e construtivista Jair Amaral/EM/D.A Press

Di Tarso destaca o universalismo construtivo que o artista criou como forma de enxergar linguagens transversalmente, unindo vanguardas europeias a símbolos da arte pré-colombiana, propondo que a América Latina tivesse identidade artística própria.

“Ele estava entre a arte abstrata e a arte figurativa, só que se colocando muito além desse conflito, porque fez a opção, junto de Piet Mondrian, de enfrentar as limitações de Picasso e do cubismo. Que limitação era essa? Colocar a África em um lugar estereotipado. Torres García passou a vida estudando a África, assim como Mondrian. Eles encontraram a abstração que materializa símbolos e geometria da história da cultura humana, por isso universalismo construtivo”, ressalta.

Foto mostra obras na parede da galeria do CCBB BH em exposição dedicada ao uruguaio Joaquin Torres Garcia
Exposição 'Joaquín Torres García: 150 anos' ficará em cartaz no CCBB-BH, na Praça da Liberdade, até 12 de outubro Jair Amaral/EM/D.A Press

O curador reuniu na mostra obras de cerca de 100 artistas que têm relação com o movimento criado pelo uruguaio. Entre eles estão Bispo do Rosário, Hélio Oiticica, Cildo Meirelles, Anna Bella Geiger, Emanoel Araújo, Jaime Lauriano, Leonilson, Luiz Sacilotto, Lygia Pape, Max Bill, Rivane Neuenschwander, Vaslav Nijinsky, Rosana Paulino e até nomes da música, como BaianaSystem e Jorge Mautner.

Geração invisível

Saulo di Tarso afirma que a arte latino-americana não tem maior reconhecimento mundial devido aos governos militares no século 20. Ele se diz parte da “geração invisível” de críticos e curadores.

“Não somos midiáticos. Herdamos dos pais a dramaticidade da ditadura. Na medida do tempo, o mundo cultural não nos deu espaço para refletir e falar. O silêncio apaga e divide as coisas, algo bem mais antigo do que as questões que se discutem agora sobre decolonialidade", afirma.

A América Latina era presente na música de Belchior, Secos & Molhados ou do Clube da Esquina, e agora voltou a ser corrente na obra, por exemplo, do BaianaSystem, observa o curador.

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“JOAQUÍN TORRES GARCÍA: 150 ANOS”

Desta quarta-feira (15/7) a 12 de outubro, no 3º andar do CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). Abre de quarta a segunda-feira, das 10h às 22h. Ingressos gratuitos devem ser retirados no site ccbb.com.br/bh ou na bilheteria.

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