CINEMA BRASILEIRO

'Barba ensopada de sangue', com Gabriel Leone, estreia nas salas de BH

Baseado no romance de Daniel Galera, filme de Aly Muritiba aborda enigmática relação entre avô e neto, marcada por segredos de um povoado no Sul do Brasil

Publicidade
Carregando...

O homem está sentado no escuro, com a arma repousada sobre a mesa ao lado. Sem aviso, começa a contar que o pai, Gaudério, não morreu afogado, mas foi vítima de misterioso assassinato no povoado em que morava. Além da revelação, confessa que pretende tirar a própria vida. Do outro lado, o filho escuta e reage, mas seu rosto não é visto pelo público.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

A sequência, que dura cerca de 10 minutos, abre “Barba ensopada de sangue”, filme do diretor Aly Muritiba que chega nos cinemas de BH nesta quinta-feira (2/4). O longa se inspira no romance homônimo de Daniel Galera, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013.

O longa de suspense estreou no Festival de Gramado em 2024 e conquistou o prêmio de Melhor Montagem, assinada por Karen Akerman. Na trama, Gabriel (Gabriel Leone, o Bobbi em “O agente secreto”) precisa desvendar sozinho o mistério envolvendo o passado de Gaudério, seu avô.

Muritiba afirma ter reconhecido, de cara, o potencial cinematográfico do texto. “Quando li as primeiras 30 páginas do livro, aquelas nas quais o pai anuncia o suicídio, aquilo me arrebatou. Foi tão forte que pensei: preciso contar esta história”, diz o diretor.

O escritor Daniel Galera não participou do processo. Segundo Aly Muritiba, a decisão foi tomada para garantir autonomia ao filme. “Queria fazer a minha adaptação da obra, não a dele. Muitas vezes, o autor pode ficar muito apegado a certas coisas e eu queria liberdade para preservar o que achasse essencial. Queria que o filme tivesse a minha cara”, explica.

No longa, o protagonista recebe um nome, ao contrário do livro, em que permanece anônimo. Ainda assim, o debate sobre identidade atravessa toda a narrativa, seja diante do deslocamento para um ambiente desconhecido ou da própria instabilidade interna de Gabriel, que, cada vez mais, perde a noção de si mesmo e a perspectiva do outro.

A primeira sequência, em que não se vê Gabriel, é metáfora para a condição do personagem. “Já na primeira cena, isso se torna uma questão. O espectador se pergunta: por que a câmera não corta? Por que não estou vendo o contraplano.? (Isso ocorre) Até ele ter esta resposta dada”, comenta o diretor.
A estrutura do filme se divide em três atos, acompanhando pai, filho e avô – concentrada no eixo central.

Gabriel se muda para a Praia da Armação, povoado dedicado à pesca da baleia onde o avô morreu, no litoral de Santa Catarina. O intruso é recebido com hostilidade pelos moradores, que não escondem o incômodo com sua presença.

A reputação de Gaudério, avô de Gabriel, precede o neto e as fofocas se acumulam na vila. Antes, o homem era respeitado, mas algo no passado alterou radicalmente a presença dele no povoado. Circulam versões que o descrevem como violento, louco, amaldiçoado e muito mais.

Ator Gabriel Leone está sentado na areia, observando o mar, em cena do filme Barba ensopada de sangue
O mar, com suas marés e tempestades, é metáfora do mundo interior de Gabriel, o jovem protagonista de 'Barba ensopada de sangue' RT Features/divulgação

Gabriel, que conviveu pouco com Gaudério, tenta se manter fiel a ele. “O avô é uma figura quase mitológica, mas todos falam que o neto se parece muito com ele. Em algum momento, você se pergunta: será que Gabriel vai seguir a mesma sina do avô? Será que ele vai enlouquecer? Será que ele vai se tornar uma pessoa violenta? A pergunta fundamental tanto do livro quanto do filme é: será que os nossos destinos são traçados por nossos antepassados?”, afirma Muritiba.

Quanto mais Gabriel insiste em investigar, mais os ânimos se alteram no povoado de Armação. O nome de Gaudério é proibido e a aproximação com Gabriel não é aceitável. Para os moradores, ambos são depravados.

À medida que o jovem reage e faz perguntas mais diretas, a situação piora e o mar começa a virar, literalmente.

A narrativa não linear aposta em metáforas visuais que embaralham a percepção do espectador. Depois da metade do filme, já não dá para afirmar com segurança o que é realidade ou delírio, nem se a verdade está do lado da população ou de Gabriel.

Natureza

Entre as metáforas visuais, está o mar, reflexo das emoções do protagonista. Gabriel é um personagem contido, de poucas reações. Ele se fecha como forma de proteção, mas não aceita desaforo calado.

“Precisava encontrar formas para o espectador acessar um pouco o estado emocional do personagem. Faço isso com a natureza, o vento, o mar. Quando o personagem está muito tenso e nervoso, o mar está super-revolto”, explica o diretor.

As filmagens ocorreram em Cananeia, Ilha Comprida e Ilha do Cardoso, no litoral paulista. Muritiba conta que elas dependiam da formação de determinadas condições climáticas para a equipe pudesse começar a trabalhar.

“BARBA ENSOPADA DE SANGUE”

Brasil, 2024, 114min. Direção: Aly Muritiba. Com Gabriel Leone e Thainá Duarte. Em cartaz no UNA Cine Belas Artes, às 20h20; Cidade 5, às 20h45; e Del Rey 7, às 20h55.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria

Tópicos relacionados:

cinema cultura

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay