Fernanda Montenegro em 'Velhos Bandidos', filme de Claudio Torres crédito: Laura Canpanella/Divulgação
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Fernanda Montenegro nem pensa em parar. Aos 96 anos, segue ativa e altiva, repleta de dizeres e vontades para pôr para fora, nas telas, nos palcos, na vida. "Enquanto meu cérebro entender o que é sujeito, verbo e predicado, estarei em trabalho de parto cênico", diz.
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É, de certa forma, um retrato de sua nova personagem, Marta, que também não se aquieta com a velhice e vê nela uma chance de fazer sacanagem de vento em popa.
Protagonista de "Velhos Bandidos", que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (26/3), a idosa recebe uma notícia aterradora, mas decide não se abater. Para viver o resto da vida plenamente - e rica-, ela faz um plano supostamente infalível para assaltar um banco e fugir com o marido para o outro lado do mundo.
Marta e Rodolfo, encarnado por Ary Fontoura, de 93 anos, são bons em maquinar a bandidagem, mas velhos demais para executá-la. Precisam de alguém magrinho e flexível para atravessar um túnel aberto nas paredes dos cofres. Por isso, recrutam os dois ladrões interpretados por Bruna Marquezine e Vladimir Brichta. Em paralelo, um detetive, vivido por Lázaro Ramos, descobre que coisa ruim vai rolar naquelas bandas.
Há outros veteranos no elenco também. Em participações menores, dão as caras artistas como Tony Tornado, Reginaldo Faria e Nathalia Timberg, a nata da TV brasileira, pares de Montenegro e Fontoura que ajudam a dar peso à mensagem do filme -posta na boca da própria Marta. "Jamais subestime os velhos, porque um dia vocês serão um de nós", avisa ela à plateia do cinema.
São atores ávidos pela chance de atuar mais uma vez com Montenegro, que celebra o encontro de gerações. "Há velhos resistentes em plena atividade, assim como há jovens, surpreendentemente, dando conta de seus deveres", diz ela, em entrevista por escrito. "Esse convívio existe. Penso que isso já faz milênios. Ou quero eu que sempre tenha existido."
A divulgação do filme começou na feira CCXP, em dezembro, de onde Montenegro saiu ovacionada por uma multidão de jovens. Foi uma cena curiosa -o evento tradicionalmente reúne aficionados por gibis de super-heróis e filmes blockbusters, não o público que cresceu vendo a atriz nas novelas ou no teatro.
"Estar diante daquela plateia incomensurável de jovens só me traz à luz a frase de Shakespeare: ?há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia?", diz a atriz.
"Velhos Bandidos" é do cineasta Claudio Torres, o segundo filho de Montenegro, que diz ter feito o filme como uma ode à mãe. A ideia, ele conta, partiu dela.
Torres primeiro tinha escrito a história de uma anja que se revolta contra o patriarcado divino, arranca as próprias asas e vem ao planeta punir homens malvados. Ele entregou o roteiro à mãe e, só um ano depois, ouviu uma negativa. Montenegro disse que preferia fazer uma comédia mais terrena.
Marta é tão terráquea quanto ela pudesse desejar. Como qualquer ser humano, é cheia de contradições -procura justificativas para suas falcatruas, manipula quem a rodeia, mas faz de tudo para proteger família e amigos. Seu maior crime é amar demais.
Há ainda um apetite sexual na personagem, quase nunca explorado na ficção centrada em idosos. Numa cena, Marta faz uma cara de maliciosa e diz que o marido fora bárbaro com sua bengala. Depois, eles transam, um sexo que faz as paredes tremerem, excitados com o perigo iminente -acabaram de fechar o acordo que os deixará ricos ou atrás das grades, afinal.
Montenegro celebra esse lado da personagem. "Enquanto estivermos vivos, no sentido amplo dessa palavra, Eros estará presente", diz ela, em saudação ao deus grego que defende o tesão e a paixão.
"Velhos Bandidos" se soma a uma onda de filmes e séries de TV que tiram os idosos dos papéis de bons velhinhos para levá-los a histórias policialescas e até distopias. Está aí, na renovação e no trabalho, o segredo da vitalidade de Montenegro, diz Torres, seu filho. "Ela tem 96 anos e uma agenda pior do que a minha. É que nem tubarão; se parar, afunda. E ela é tubarão grande."
Quando estreia: nesta quinta-feira (26), nos cinemas;
Classificação 14 anos;
Elenco: Fernanda Montenegro, Ary Fontoura e Bruna Marquezine;
Produção: Brasil, 2026;
Direção: Claudio Torres.
Fernanda Montenegro completou 96 anos na última quinta-feira (16) e recebeu uma homenagem especial da filha, Fernanda Torres. A atriz publicou uma foto antiga em preto e branco, em que aparece bebê no colo da mãe, e escreveu: "Feliz aniversário, minha mãe." Reprodução / Instagram
Em outra publicação, Fernanda Montenegro agradeceu por comemorar a data ao lado dos filhos e netos: "Alegria é estar com meus filhos e netos comemorando." Um registro simples, mas cheio de afeto, que reforça o elo entre duas gerações marcantes da dramaturgia brasileira. Reprodução
Fernanda Montenegro, aliás, retornou aos palcos em julho de 2025 após um período de férias. Como a própria anunciou à época. Viva - wikimedia commons
“Tirei umas férias - eu sempre volto, espero sempre voltar no mês de julho”, declarou a atriz, após lembrar os projetos cinematográficos dos quais participou recentemente (“Ainda Estou Aqui” e “Vitória), além da leitura que fez de grandes autores na abertura do ano da Academia Brasileira de Letras.
Reprodução Facebook
Em outro vídeo publicado nas redes, Fernanda Montenegro exibiu cenas de sua viagem de férias com a filha Fernanda Torres, laureada este ano com o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama por seu papel em “Ainda Estou Aqui”.
Reprodução/Instagram
Em 2024, a atriz entrou no Guinness Book, o Livro dos Recordes, ao registrar o maior público de uma leitura filosófica com o monólogo “A Cerimônia do Adeus”, texto de Beauvoir, para uma plateia de mais de 15 mil pessoas no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.
Reprodução/Instagram
Fernanda Montenegro nasceu em 16/10/1929, no Rio de Janeiro. Seu nome de batismo, porém, é Arlette Pinheiro Monteiro Torres. Aos 15 anos, ela fez um concurso para ser locutora da Rádio Ministério da Educação e Saúde, atual Rádio MEC.
Arquivo Nacional
Ela foi aprovada e não demorou muito para também se interessar por radionovelas. Logo, resolveu adotar o nome artístico de Fernanda Montenegro e também dar aulas de português para estrangeiros, como forma de melhorar os rendimentos.
Reprodução Instagram
Em 1950, Fernanda Montenegro ingressou no teatro e, no ano seguinte, foi a primeira atriz contratada da recém criada TV Tupi. Já em 1954, transferiu-se para a Record e participou, entre outras, da primeira novela da história da emissora. Em 56, voltou para a TV Tupi, onde fez mais novelas e teleteatros.
Divulgação/Vania Toledo
Nos anos seguintes, ela teve novas passagens pela Tupi, além da Excelsior, TV Rio e Bandeirantes. Em 1981, Fernanda Montenegro foi contratada pela TV Globo.
Arquivo Nacional
Logo no primeiro ano, Montenegro atuou em "Baila Comigo", de Manoel Carlos. Ela já tinha tanto respeito que o papel de Sílvia Toledo foi feito "sob encomenda". Ainda em 81, fez "Brilhante". - Reprodução Instagram
Já em 1986, Montenegro participou da novela "Cambalacho". Em 1990, ela teve participação especial em "Rainha da Sucata", outro clássico. No mesmo ano, integrou o elenco da minissérie "Riacho Doce". Em 91, interpretou a cafetina Olga Portela, na novela "O Dono do Mundo" (foto).
- Reprodução
Apesar de vilã, a personagem cativou o público, assim como Beatriz Falcão, em "Belíssima" (2005).
- Reprodução
Em 1998, ela protagonizou o filme "Central do Brasil". O longa foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a atuação de Fernanda lhe rendeu indicações a vários prêmios, inclusive ao Oscar de Melhor Atriz.
Divulgação
O filme conta a história de um garoto pobre e analfabeto que ficou órfão da mãe e agora quer ir pro Nordeste atrás do pai. Dora, a personagem de Fernanda, o ajuda nessa missão.
- Reprodução
Fernanda Montenegro é amplamente reconhecida como a maior atriz brasileira de todos os tempos. Ela recebeu 119 indicações a diversos prêmios.
- Reprodução Instagram
A indicação de Fernanda Montenegro ao Oscar a tornou a primeira latino-americana e a única brasileira nomeada para Melhor Atriz nessa premiação. Em 2025, sua filha, Fernanda Torres, igualou o feito ao ser indicada pela performance em “Ainda Estou Aqui”.
Reprodução/Instagram
Muito por conta disso, ela acabou ficando famosa internacionalmente. "Central do Brasil" rendeu a ela o Urso de Prata, do Festival de Berlim. - Reprodução Instagram
E Fernanda também concorreu por esse trabalho ao Globo de Ouro de 1999. Prêmio, por sinal, que a filha Fernanda Torres ganhou no início de 2025 pela atuação em "Ainda Estou Aqui".
- Reprodução Instagram
Em 2017, Fernanda Montenegro atuou em "O Outro lado do Paraíso". A novela é amplamente reconhecida como uma das menos bem sucedidas da emissora, mas a atriz deu outro show de atuação.
- Divulgação Rede Globo
Em 2021, ela foi a primeira atriz a entrar na Academia Brasileira de Letras. Ela ainda é a primeira mulher a ocupar a cadeira 17 deste seleto time fundado por Machado de Assis em 1895. - Carmen Mell /Trígonos Produções Culturais
Recentemente, Fernanda Montenegro protagonizou o filme “Vitória”, com direção de Andrucha Waddington e Breno Silveira, o longa é baseado em uma história real contada no livro “Dona Vitória da Paz”, de autoria do jornalista Fábio Gusmão. A obra retrata a luta da personagem para denunciar um esquema de tráfico de drogas na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro.
- Reprodução Instagram