Gabriel Villela e Cia de Dança Palácio das Artes mergulham na alma barroca
Diretor e a companhia mineira preparam 'O grande teatro do mundo', espetáculo inspirado em auto de Calderón de la Barca e no imaginário da Minas colonial
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O diretor e encenador Gabriel Villela reuniu os bailarinos da Cia de Dança Palácio das Artes no palco do Teatro João Ceschiatti e disse: “Tenho uma surpresa para vocês. Nas próximas semanas, iremos a Sabará e Ouro Preto.” O grupo se animou. “Vamos analisar o Barroco mineiro nos lugares onde ele foi gestado”, anunciou Villela, em encontro com os integrantes da companhia, na quarta-feira passada (18/3).
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A viagem servirá para pesquisa de campo com o intuito de montar a coreografia do espetáculo “O grande teatro do mundo”, previsto para estrear em outubro, no Palácio das Artes. Trata-se de adaptação do auto sacramental homônimo escrito pelo espanhol Calderón de la Barca (1600-1681), em meados do século 17.
“A coisa mais importante no auto sacramental, nos autos sacramentais de forma geral, é o fato de que ele ainda está em acordo com a angústia humana”, diz Villela, em entrevista antes do ensaio no João Ceschiatti.
O gênero teatral foi desenvolvido na Espanha entre os séculos 16 e 17, a partir das festas católicas de Corpus Christi. Funcionava quase como extensão artística da comemoração religiosa, tendo como personagens a fé, o pecado, a alma, o mundo, o rico e o pobre, entre outros arquétipos, conceitos personificados na intenção de representar a jornada da fé humana.
Contrastes
Marcadas por exagero e ornamentação, as peças trabalham com os contrastes típicos do Barroco: vida e morte, corpo e alma, pecado e redenção. “É claro que tem um lado pedagógico da Igreja Católica, porque os autos ainda ecoavam o grande cisma”, ressalta Villela, referindo-se à divisão entre a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Católica Ortodoxa.
“No nosso caso, podemos dizer que eles fundaram as artes no Brasil, especialmente em Minas Gerais, com determinados paradoxos e uma ideia de deslocamento”, comenta.
Essas duas características vão guiar a concepção da coreografia do novo espetáculo da Cia. de Dança, no qual elementos barrocos terão grande influência. Villela não trabalhará somente com os contrastes, mas com cores, angústias e dúvidas que rondavam aquela época.
O figurino, que o diretor prefere chamar de indumentária, será baseado na policromia das roupas dos santos das igrejas de Sabará e Ouro Preto. “Vamos visitar este homem angustiado, este homem barroco”, adianta.
“Faremos também uma segunda roupa, como se fosse segunda pele, armadura inspirada nos profetas de Congonhas. As vestes deles têm um quê oriental, com o adamascado e o baixo-relevo do Oriente. É quase como armadura, que me lembra muito Dom Quixote, cujo ideário era parecidíssimo, com suas angústias, dúvidas e a tentativa de revolucionar o mundo”, afirma.
Excelência mineira
Villela convidou o multiartista Ernani Maletta para criar a trilha sonora. Ele vai costurar canções das montagens “Romeu & Julieta”, “Rua da Amargura”, “Os gigantes da montanha” e “De tempo somos”, do Grupo Galpão – as três primeiras dirigidas por Villela.
“Ao falar do Galpão, estamos falando do Giramundo e das excelências mineiras. Estamos falando, inclusive, de Teuda Bara, excelência mineira única no mundo. E é claro que tudo isso será uma grande festa”, destaca o diretor mineiro.
Por se tratar de uma adaptação para a dança de um texto teatral, a perda da oralidade é algo a se levar em conta, reconhece Villela. “No entanto, hoje temos ciências como a semiologia e semiótica, que envolvem a grafia de algo não verbal e nos permitem elaborações poéticas a partir do campo da metáfora, indo em direção ao simbolismo.”
Com base em observações do carnaval e do Festival de Parintins, ele pretende trazer para “O grande teatro do mundo” essa forma de narrativa em movimento, que não depende da fala para se fazer entender.
“Qualquer criança, quando vê um carro alegórico, consegue identificar os elementos ali presentes. Por mais que o enredo seja complicado, ela consegue acompanhar. No teatro, é assim também”, diz.
“A palavra contém a ação na formação inaugural do teatro grego. Depois, o ator, ou o bailarino, entra num processo de transferência da palavra e da ideia para o corpo. Para receber essa ideia, o corpo precisa se transformar em liturgia”, aponta.
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A coreografia, portanto, vai contar com o que cada bailarino vai extrair de dentro de si, a partir da experiência própria em diálogo com as teorias levadas pelo diretor mineiro. “Isso tudo junto forma a grafia do corpo”, conclui Villela.