Fãs mantêm vivo o legado dos Mamonas Assassinas 30 anos após a tragédia
O legado dos Mamonas Assassinas ultrapassa a memória afetiva e ganha novos significados 30 anos depois
compartilhe
SIGA
Três décadas após a morte trágica dos integrantes do Mamonas Assassinas, o impacto da banda segue atravessando gerações. O grupo que misturou rock, humor escrachado e crítica social continua presente em palcos, blocos de carnaval e na memória afetiva de milhões de brasileiros.
É o caso do preparador de máquinas Nélio Antônio de Paiva, de 45 anos. A história dele com a banda começou ainda na adolescência — e nunca mais terminou. “Eu tinha entre 14 e 15 anos quando vi os Mamonas pela primeira vez na televisão. Aquilo foi diferente de tudo. Eles eram engraçados, mas tocavam muito. Era irreverência com qualidade musical”, relembra.
Leia Mais
Morador de Belo Horizonte, Nélio diz que a energia do grupo o marcou profundamente. “Eles tinham uma presença de palco absurda. O Dinho comandava tudo com uma naturalidade impressionante”, diz.
Para Nélio, a tragédia aconteceu em um momento especialmente sensível. “Minha mãe tinha falecido semanas antes. A gente ainda estava tentando lidar com aquilo quando veio a notícia do acidente. Eu assisti ao velório pela televisão com meu pai. Foi muito impactante. Parece que foi ontem”, conta.
Anos depois, a admiração virou projeto de vida. Em 2018, Nélio fundou a banda cover Mamonas Replay, dedicada a recriar com fidelidade a experiência dos shows originais.
“A gente não faz só cover. A gente estuda vídeo por vídeo. Se o Dinho dava um passo para a direita, eu tento dar também. Se ele improvisava uma piada, a gente entende o contexto para trazer a mesma energia”, explica.
Segundo ele, o cuidado é também uma forma de respeito. “Eles não eram apenas engraçados. Eram músicos excelentes. O Bento era um guitarrista incrível, o Samuel segurava o groove, o Júlio trazia os teclados… era uma banda completa”, elogia.
A semelhança no palco é tão grande que foi até aprovada pelos familiares dos integrantes. “Já estive em Guarulhos, conheci familiares do Dinho. É emocionante. A gente sente a responsabilidade de manter a memória deles viva”, destaca. Até mesmo uma tia do vocalista chama o mineiro de sobrinho e vê no Mamonas Replay uma forma de matar a saudade.
Mamonas no carnaval
A advogada Joana Carvalho, de 38 anos, também transformou a admiração pela banda em ação concreta. Em 2019, ao lado do marido e de amigos, criou um bloco de carnaval inspirado nos Mamonas.
“Para mim, eles são a cara do carnaval. Misturam ritmos, fazem sátira, são exagerados, coloridos. É festa pura”, diz.
O bloco Atenção Creuzebeck, que desfila no bairro Calafate, na região Oeste de BH, começou pequeno, mas hoje reúne cerca de 90 ritmistas e sete músicos. “Foi crescendo porque as pessoas queriam reviver essa energia. É impressionante como todo mundo canta junto”, afirma.
Joana conta que o grupo também decidiu refletir sobre o contexto atual ao trabalhar as músicas. “A gente sabe que algumas letras podem soar polêmicas hoje. Então optamos por contextualizar. Explicamos que muitas músicas eram sátiras, críticas sociais travestidas de humor”, afirma.
No primeiro ano, o bloco não tocou a canção “Vira-vira” por ser polêmica demais. Ao longo dos anos, eles entenderam que todas as músicas deviam estar no desfile, mas com algumas adaptações. Em “Uma Arlinda mulher”, por exemplo, os carnavalescos cantam “te encho de beijinhos” em vez de “te encho de porrada”.
O bloco também usa das músicas para criar campanhas educativas. “Mundo Animal” inspirou uma iniciativa com foco em conscientização sobre respeito aos animais e ao meio ambiente. A campanha incluiu adoção de animais e doações de ração, em parceria com ONGs como Arca de Noé e Gatinhos da Albita.
Já a música “Jumento Celestino” serviu de mote para uma campanha contra a xenofobia. “Robocop Gay” denunciava a LGBTfobia. Para o carnaval de 2027, o grupo pretende revisitar “Uma Arlinda mulher” para questionar a violência contra a mulher.
Joana afirma que a proposta é celebrar sem deixar de dialogar com o presente. “O bloco virou também um espaço de debate, de acolhimento. Muita gente fala que encontrou ali um lugar seguro”, destaca.
Segundo Joana Carvalho, o projeto ultrapassou a música. “Tem integrante que já disse que o bloco ajudou a sair de um quadro de depressão. Isso é muito forte. Virou uma família”, diz.
Um legado que resiste ao tempo
Com apenas um álbum lançado em vida, os Mamonas Assassinas venderam mais de 3 milhões de cópias e se tornaram um dos maiores fenômenos da música brasileira nos anos 1990. Misturando rock, forró, pagode e heavy metal, conquistaram adultos e crianças em tempo recorde.
Trinta anos depois, continuam presentes em playlists, homenagens, documentários e tributos. Pais apresentam as músicas aos filhos, e jovens descobrem a banda pelas redes sociais.
“É como torcida de futebol. Quem é fã, é fã para sempre. E passa para frente”, destaca Nélio.
Para o vocalista do Mamonas Replay, o que permanece é a autenticidade. “Eles eram verdadeiros. Não tentavam ser outra coisa. Acho que é por isso que, 30 anos depois, a gente ainda está aqui falando deles.”
Joana concorda. “Quando toca Mamonas, a sensação é imediata: alegria. Eles representam uma época mais leve na memória das pessoas”, destaca.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia