Autoetnografias imaginárias de Juliana Matsumura
Na exposição 'Rio-correnteza', artista de origem japonesa e baiana traça a cartografia de seu legado familiar, com reflexões sobre ancestralidade e imigração
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Especial para o EM
Como cuidamos dos nossos mortos? Daqueles que vieram antes de nós? Como elaboramos o luto a partir das diferentes culturas que nos atravessam, nos formam e nos são herança de vida – e que, paradoxalmente, nos fazem continuar vivos?
Juliana Matsumura carrega consigo as origens japonesa, paterna, e sertaneja baiana, materna, e constrói uma autoetnografia ao cartografar o imaginário familiar. A artista transforma memória em método e ritual em linguagem.
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Durante seminário ocorrido no contexto da pandemia, o escritor Edmilson de Almeida Pereira nos apresentou a imagem do que chamou de “céu da ancestralidade” nas casas sertanejas: paredes pintadas em tons de azul, fotografias dos mais velhos convivendo com imagens de santos católicos. A poesia evocada e explicada pelo escritor também se faz presente na elaboração ritual que atravessa a obra de Juliana.
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Seu rito de passagem – a transformação do luto em força de vida – se desenha a partir de uma cartografia de viagens. O deslocamento e a imigração tornam-se eixos vitais de sua produção. Quando somos filhos e netos de imigrantes, o que fazemos com as histórias que nos foram transmitidas? Que fios escolhemos puxar para nos entendermos com o presente e compreender quem somos?
Juliana imagina percursos em relação com a terra, com a firmeza do chão, com o território – ou melhor, com os territórios. Pontes, trens, imagens antigas de livros de outros viajantes se sobrepõem, misturando deslocamentos físicos e experiências transmitidas.
Ouro branco
Os ramos de algodão presentes em seus mapas situam a relação direta com o sertão brasileiro. Nesse ponto, o diálogo com a pesquisa da artista Simone Barreto se faz notar. Ao investigar o chamado “ouro branco” e o papel das mulheres coletoras de algodão, Barreto escuta histórias sobre a presença dessa cultura no Brasil e transforma relatos em bordados, refazendo paisagens dos sertões nordestinos. As duas artistas aproximam mulheres e a tecitura da vida, revelando o trabalho manual como gesto de memória e resistência.
Outro atravessamento importante é a obra do artista camaronês Barthélemy Toguo, cuja pesquisa problematiza a imigração em contextos marcados pela colonização e pelo racismo. Toguo questiona rótulos e classificações impostas pela burocracia estatal e seus dispositivos de controle. O carimbo, que se transforma em matriz de xilogravura, renomeia e tensiona a naturalização da exclusão institucionalizada. São outros modos de viver o luto, a perda e a separação entre África e França, entre continentes e histórias interrompidas.
Altar budista e frutas
Juliana procura remontar perdas, sobras, guardados, heranças e lembranças, construindo um campo de memórias feito tanto de recordações quanto de esquecimentos. Retoma para si o altar budista da cultura japonesa e esculpe frutas como parte do cenário daquilo que é importante lembrar na ancestralidade espiritual.
As frutas tornam-se lugares de memória: oferendas das farturas da natureza e de suas sementes, apontando para aquilo que pode renascer e permanecer vivo em nós, no presente e no futuro. O som dos sinos nos convida a parar, a permanecer, a compreender o tempo, as impermanências, o despertar e a renovação cotidiana.
Com suas cartografias, Juliana traça autoetnografias imaginárias ao percorrer caminhos de seus antepassados e atravessar as veredas das vozes de avós e pais, que deram notícias de um lugar conhecido e deixado para trás. Ser migrante, ser imigrante, é reinventar a vida em outro lugar. É um processo trabalhoso, que leva tempo. Vive-se sempre entre territórios, pertencendo a vários lugares e a múltiplas temporalidades. A exposição de Juliana Matsumura demonstra com precisão a leitura e a transmissão da experiência dos viajantes.
Trata-se do tempo da escuta, das histórias tantas vezes repetidas. Trata-se também da dimensão conflitiva de articular experiências familiares que ora se estranham, ora se aproximam. Ouvir os migrantes, sejam eles nossos parentes ou não, é um dos ensinamentos propostos por Juliana. Aprender a escutar as narrativas de quem veio de outro lugar, abrir espaço, acolher, fazer junções, alinhavar pedaços, compor novas travessias e firmar novos territórios. Contar e recontar, retransmitir heranças, ressignificar os sentidos dos rios que fazem correntezas em nós.
Sustentar a memória dos familiares não é mantê-la presa ao passado, mas fazê-la circular com vitalidade e continuidade. Na obra de Juliana Matsumura, lembrar é um gesto ativo, um trabalho cotidiano de transmissão que se atualiza no presente. As memórias são matéria viva, em transformação, atravessando gerações e reinventando pertencimentos. Ativar rituais, cartografias e narrativas é também um modo de cuidado.
“RIO-CORRENTEZA”
Exposição de Juliana Matsumura. Mitre Galeria (Rua Tenente Brito Melo, 1.217, Barro Preto). Encerramento neste sábado (10/1), das 10h às 16h. Entrada franca.
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* Doutora em história da arte pela Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne e professora de teoria, crítica e história da arte na Escola de Belas Artes da UFMG