CINEMA

'Se eu tivesse pernas, eu te chutaria' revela o inferno da maternidade

Estrelado por Rose Byrne, filme em cartaz em BH se baseia no terror vivido pela cineasta Mary Bronstein diante da grave doença da filha

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Alguma coisa aconteceu em Hollywood recentemente que fez vários projetos sobre o lado B da maternidade, aqueles em que você padece, porém bem longe do paraíso, ganharem a cobiçada “luz verde”, jargão para o aceite dos estúdios americanos quando decidem, afinal, transformar um roteiro em um longa-metragem.

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Se não estou enganada, essa onda começou em 2018 com “Tully”, protagonizado por Charlize Theron, com roteiro de Diablo Cody e direção de Jason Reitman, um inferno para assistir. Em 2021, foi a vez de Amanda Seyfried viver uma escritora em depressão pós-parto em “Respire fundo”, filme menos badalado, mas igualmente aterrorizante.

Em 2023, “Adalynn” foi lançado, mas a depressão pós-parto ali fazia parte do pano de fundo de uma história de terror, terror mesmo. No ano seguinte, foi a vez de “MOM”, com Emily Hampshire no papel da mãe depressiva que começa a ter visões premonitórias e assustadoras.


Mas foi só em 2025 que o tema chegou ao fundo do poço. Ou melhor, que as protagonistas das histórias terríveis ligadas à maternidade chegaram ao limite do suportável.


O filme “Morra, amor”, com Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, que estreou no fim de novembro nos cinemas do Brasil, é quase tão torturante para o espectador quanto para a protagonista.


Mas eis que “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”, escrito e dirigido por Mary Bronstein, chega agora aos cinemas a partir da experiência real vivida pela cineasta no período em que sua filha enfrentou uma doença grave e rara, vivida por ela quase sozinha enquanto o marido estava em viagem de trabalho, situação que a levou, pouco a pouco, a perder o controle da própria sanidade mental.


A protagonista, papel da atriz australiana Rose Byrne, cada vez mais bem cotada aos principais prêmios do cinema (que alívio poder dizer isso), vive um inferno, uma situação sufocante e impossível, mas você não tira o olho da tela, muito menos a bunda da cadeira.

Atriz Rose Byrne usa vestido tomara que caia preto e segura o troféu Leão de Prata, no Festival de Berlim
Rose Byrne ganhou o Urso de Prata, no Festival de Berlim 2025, por sua atuação em 'Se eu tivesse pernas, eu te chutaria' Tobias Schwarz/AFP/22/2/2025


A atriz conta que ficou fascinada por um detalhe do roteiro, que é justamente a pouca informação que ele dá a respeito da situação que leva aquela mulher ao momento em que está, prestes a perder o controle de tudo.


“Devorei o roteiro em uma sentada e pensei: 'que personagem incrível'. Como vai ser empolgante fazer uma engenharia reversa para entender como ela chegou a esse ponto em que a encontramos. Muito pouca informação é dada ao público. Você é jogada ali como uma bolinha de gude dentro do fogo.”


O filme de fato não faz nenhuma espécie de prólogo. A personagem de Byrne já está em total desespero quando a história começa. A gente vai sabendo conforme o filme acontece que ela cuida sozinha da filha com problemas de saúde, que o marido está viajando e que o psicanalista, papel do comediante Conan O'Brien, não dará as respostas que ela procura.


É uma situação sem saída para a personagem, mas não sem alívio para o espectador. Mérito do roteiro, da direção, mas muito da intérprete, que leva para este drama as mesmas qualidades que fazem dela uma grande atriz cômica.


Esse desempenho pôde ser visto em séries como “Amor platônico”, ao lado de Seth Rogen, que já está na terceira temporada na Apple TV, e “Physical”, que teve três temporadas entre 2021 e 2023, na mesma plataforma.

ROTEIRO


Rose Byrne nunca parece atuar. A atriz australiana tem presença leve em cena e um jeito tão despretensioso de lidar com seus personagens que faz você acreditar naquilo sem nenhum esforço.


“Todos nós reagimos de forma diferente às crises inevitáveis da vida. A minha personagem neste filme está falhando terrivelmente quando a encontramos, e tudo só piora, mas o que me deixou obcecada por contar essa história foi a maneira como o roteiro me pareceu a expressão de um sentimento, de uma forma que eu nunca tinha lido antes”, disse Byrne.


Em “Se eu tivesse pernas” a personagem de Byrne se envolve com o gerente do motel para onde ela se muda com a filha quando o teto de sua casa desaba. Não é um envolvimento romântico, Linda e James se unem por necessidade e falta de opção.

A$AP ROCKY

Sem mais spoilers, só um detalhe importantíssimo: James, o tal gerente, superintendente, porteiro, não fica claro no filme, é interpretado por A$AP Rocky, o rapper nova-iorquino que está despontando como ator de enorme carisma.


Rocky tem papel fundamental no último longa-metragem de Spike Lee, o ótimo “Luta de classes”, protagonizado por Denzel Washington, e é o pai dos três filhos de Rihanna, RZA, Riot e Rocki.


Talvez o simples fato de que a carreira profissional do rapper esteja ganhando nova frente, enquanto a de Rihanna, milhões de vezes mais famosa do que ele, parece estagnada desde que ela decidiu formar uma família, diga mais sobre os desafios da maternidade do que todos esses longas-metragens recentes juntos.


Este é um filme que vale a pena assistir, nem que seja para torcer pela australiana Rose Byrne na noite do Oscar.

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“SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA”


EUA, 2025, 113min. De Mary Bronstein, com Rose Byrne, Conan O'Brien, Danielle Macdonald e A$AP Rocky. Em cartaz na Sala 3 do Cine UNA Belas Artes, às 20h20.

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