MÚSICA BRASILEIRA

Songbook homenageia a desbravadora Beth Carvalho

Livro de Rodrigo Faour destaca o faro da "Madrinha do Samba" para sucessos, como 'Andança', e o empenho dela em dar voz aos negros

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Aos 13 anos, Beth Carvalho (1946-2019) rompeu as fronteiras da Zona Sul carioca para se lançar de corpo e alma nas rodas de samba do Morro do Salgueiro, primeira comunidade que se abriu para a classe média. Foi ali, entre compositores e sambistas, que aquela garota começou a construir a profunda ligação com a cultura popular que moldaria sua carreira.

Naquele universo diferente do seu, Beth conheceu grandes nomes da música que virariam amigos – Nelson Cavaquinho e Martinho da Vila, entre outros.

“Eu também frequentava a roda de samba de Cartola e todas as semanas via os compositores sambistas no Teatro Opinião. Como não me contentava, todo sábado resolvia ir para a Mangueira”, ela revelou ao jornalista e historiador da música Rodrigo Faour. “Eu vivia um universo diferente, paralelamente, com uma turma bem mais velha do que eu”.

Essas memórias fazem parte do songbook “Beth Carvalho – Uma vida pelo samba”, lançamento recente da Sonora Editora e fruto do projeto Sambabook, idealizado pela Musickeria. Além de Beth, o projeto rendeu obras sobre João Nogueira, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Dona Ivone Lara e Jorge Aragão.

Colega de Verocai

Em 440 páginas, o livro funciona como biografia alternativa da cantora. Rodrigo Faour faz releitura detalhada da discografia da sambista, incluindo os primeiros compactos, e revela curiosidades, como o fato de Beth ter sido colega de Arthur Verocai no primário, no Externato Cristo Redentor. Aquele menino se tornaria um dos maestros mais respeitados da música popular brasileira.

“Só aceitei escrever o livro porque soube que a Beth havia escolhido meu nome”, conta o jornalista, lembrando que a homenagem da Musickeria à “Madrinha do Samba” era projeto antigo.

A relação dos dois ultrapassou a barreira fã-ídolo, tornando-se parceria profissional. Beth colaborava com os projetos jornalísticos de Faour – inclusive, gravou piloto para TV que nunca foi ao ar – e consultava o jornalista antes de lançar músicas e discos.

A proximidade facilitou a produção do livro. “Desde os 14 anos, mantenho acervo dos principais artistas da música brasileira. Por ser fã da Beth, tinha muitos documentos sobre ela”, lembra Faour.

Mas ele não se limitou ao próprio arquivo. Pesquisou na Biblioteca Nacional e encontrou notas, reportagens e críticas que ajudam a contextualizar o início da carreira da artista, como os textos do polêmico crítico José Ramos Tinhorão publicados no Jornal do Brasil.

Tinhorão se surpreendeu com o disco de estreia de Beth, “Canto para um novo dia” (1973), que combinava “coisas aparentemente estapafúrdias, como o arranjo para cordas do maestro César Camargo Mariano, o retumbante violão de sete cordas de Dino, a batida fora de série de Nelson Cavaquinho e o talento improvisativo do cavaquinho manejado pelo monstro nordestino José Menezes”.

Bossa nova

Embora participasse das rodas de samba cariocas, Beth dedicou a primeira parte da carreira a outros gêneros musicais. Entre eles, a bossa nova, da qual passou a se desvincular na virada da década de 1960 para 1970, incomodada com a segregação que se fazia ali envolvendo a alta e baixa cultura.

Nessa época, ela era cantora de festivais. “A opção por abraçar o samba enquanto artista foi só em 1972. Nos sete anos anteriores, ela estava viajando o Brasil para participar dos festivais. Até para o Rio Grande do Sul ela foi”, afirma Faour.

O mais importante foi o Festival Internacional da Canção, em 1968. Beth apresentou “Andança”, de Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós. A música não ganhou, mas caiu no gosto popular. O primeiro lugar ficou com “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque; e o segundo ficou com “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré.

“Andança” surgiu por acaso. Edmundo Souto e Danilo Caymmi estavam na casa de Beth tocando violão enquanto a esperavam sair do banho. Ela escutou a melodia que os amigos estavam criando, saiu do banheiro correndo e, de toalha, pegou o gravadorzinho para registrar aquilo. Mandou a gravação para Paulinho Tapajós, que escreveu a letra e enviou de volta, por telefone.

Com a música já pronta, Beth resolveu deixar de lado a canção que interpretaria no festival para inscrever “Andança”.

Essa atitude deixa claro o faro de Beth Carvalho para descobrir sucessos e eternizar canções. “Ela tinha a preocupação de resgatar os antigos compositores e lançar os novos. Foi uma coisa que fez a vida inteira”, diz Faour.

“Além disso, Beth sempre se preocupou com os direitos dos artistas – seja dos intérpretes ou dos compositores – e se comprometeu com a negritude. Naquela época, havia pouca gente interessada nesse assunto, o movimento negro ainda não era tão organizado. Beth foi uma pessoa que deu voz e deu nome a esses artistas”, conclui Rodrigo Faour.


“BETH CARVALHO – UMA VIDA PELO SAMBA”

• De Rodrigo Faour
• Sonora Editora
• 440 páginas
• R$ 89,90
• Disponível nos sites da Amazon, Americanas,
Magazine Luiza e Submarino

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