A veterana MPB seduz os jovens do século 21 e cai no gosto da Geração Z
Número de ouvintes de música popular brasileira com 18 a 24 anos cresceu 64% no Brasil entre 2022 e 2024, aponta o Spotify
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Siga noAté o último mês de maio, as amigas Maria Fernanda Marques e Yasmin Gerimias, de 23 anos, nunca haviam assistido a um show no Palácio das Artes, tradicional espaço de BH conhecido por receber veteranos consagrados da música brasileira. Quem finalmente levou as duas até lá foi a cantora Marina Lima, de 69 anos, que se apresentou, no dia 30, para plateia formada em grande parte por jovens no evento do projeto Música Quente.
A renovação do público de nomes como Marina tem chamado a atenção de artistas, do mercado e de produtores culturais. Veteranos se tornaram grandes chamarizes de festivais. Para eles, ver os jovens na plateia é sinal de que sua obra quebrou a barreira do tempo.
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As razões do fenômeno vão da influência familiar e da identificação emocional até o compartilhamento de visões políticas, a relevância dos discursos e temáticas presentes nas letras de Marina Lima, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros nomes.
Outro fator é a acessibilidade proporcionada por plataformas digitais. Serviços de streaming e redes sociais, como YouTube, TikTok e Instagram, desempenham papel importante na redescoberta da MPB, facilitando o contato dos jovens com álbuns e artistas do passado.
De acordo com dados do Spotify, entre 2022 e 2024, houve aumento de 64% do número de ouvintes de MPB com 18 a 24 anos. Em Minas, 41,5% deles têm menos de 30 anos, o que coloca o estado entre os que apresentam maior concentração de jovens atentos à MPB.
Selfie
Acostumadas a frequentar a cena musical de BH, Maria Fernanda e Yasmin foram ao show de Marina acompanhadas de dois amigos, mas faltaram as selfies. Um contratempo com a documentação atrasou a entrada do grupo, que acabou não registrando o momento em fotos.
As duas costumam assistir a shows em casas como a Autêntica e em festivais como o Sarará e o Sensacional. Também participam de rodas de samba, outro movimento que voltou com força total em BH.
Luiz Henrique Assis, professor da graduação em museologia e da pós-graduação em ciência da informação da UFMG, também é compositor. Para ele, os jovens se cansaram “de uma certa superficialidade” e procuram algo com mais qualidade e diversidade no universo fonográfico. Encontram o que desejam na MPB.
“Isso, muitas vezes, contrasta com a pasteurização e a falta de imaginação no mainstream pop, no qual parte desse público toma suas primeiras referências”, avalia.
Los Hermanos
Thiago Pereira Alberto, professor de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que a redescoberta da MPB não é exatamente recente. Ela ganhou força na primeira metade dos anos 2000, com a ascensão da internet.
Para Thiago, a banda Los Hermanos teve papel importante nesse processo. “Eles funcionaram como uma espécie de embaixadores, apresentando a nova geração a nomes como Roberto e Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Belchior. É um crédito interessante a se dar aos Los Hermanos”, afirma. A nova geração daquela época, vale lembrar, já está na casa dos 40 anos.
Para além dos cânones, Thiago chama a atenção para a descoberta de um certo lado B da MPB, ou seja, Jards Macalé, Itamar Assumpção, Geraldo Azevedo e Alceu Valença. “Vivemos um tempo de muita nostalgia. Esse marco é muito evidente na fruição, no consumo e na produção da música popular brasileira das últimas décadas”, observa.
Luiz Henrique Assis faz pesquisa de pós-doutorado sobre as consequências do domínio do consumo de música por plataformas como Spotify. Ele destaca que interações mediadas pelas redes sociais nem sempre são tão efetivas quanto experiências fora do ambiente digital. “É mais provável que o estopim tenha ocorrido fora dos streamings. No ambiente doméstico, por exemplo”, ressalta.
Muitos jovens da chamada Geração Z cresceram ouvindo MPB em casa, apresentados a ela por pais ou outros familiares. Yasmin Gerimias, por exemplo, acompanhava a mãe escutando Vanessa da Mata e Ana Carolina. Não se recorda exatamente como conheceu Marina Lima, mas foi ela quem apresentou a cantora à amiga Maria Fernanda.
Posição política
O posicionamento político dos artistas é fator decisivo para atrair o jovem. No caso de Maria Fernanda e Yasmin, é pré-requisito fundamental para a decisão de acompanhar ou não o trabalho do músico.
“Isso é totalmente importante, pois determina muito a minha conexão com o artista. É difícil manter o interesse por quem não compartilha os valores que respeito”, afirma Maria Fernanda Marques.
“Se eu descobrisse que um artista que gosto tem um posicionamento político que considero problemático, isso mudaria a forma como me relaciono com a obra”, diz Yasmin.
A dupla não escuta só MPB. O gênero também não é o mais ouvido pelo jovem brasileiro, que consome mais sertanejo, funk e pop. Maria Fernanda é fã de carteirinha de Beyoncé e escuta o rap de Duquesa, Júlia Costa e Tasha & Tracie. Entre os artistas que a atraem, Yasmin cita Marina Sena, BaianaSystem e Ebony.
A renovação do público de MPB mostra que essa música dialoga com diferentes épocas e vivências. “O que chamamos de MPB é um campo amplo, mas, principalmente, combina a força da brasilidade com a vontade de transformar e renovar a criação musical”, conclui o professor Luiz Henrique Assis.