Janeiro não é recomeço. É retomada
Se há uma decisão inteligente para este início de ano, talvez seja essa: menos promessas, mais retomadas. Menos ruptura, mais coerência. O corpo agradece
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SIGA NOExiste uma ideia curiosa, e bastante confortável, de que o ano começa limpo. Como se o réveillon tivesse poderes terapêuticos. Como se a virada do calendário apagasse excessos, interrompesse processos e devolvesse ao corpo um estado neutro, pronto para novas decisões. Não devolve. O corpo não vira a página junto com o calendário.
Janeiro, na prática, não é um ponto de partida. É um ponto de continuação. E talvez seja justamente aí que mora o desconforto desse mês.
Voltamos do descanso exigindo demais de um corpo que ainda carrega o acúmulo do ano anterior. Retomamos treinos, trabalho, compromissos e metas como se houvesse um botão de “reset” fisiológico. Não há. O organismo lembra. Lembra do sedentarismo, do sono irregular, da alimentação errática e do estresse prolongado. Lembra também do que foi bem feito, e isso faz toda a diferença.
No consultório, janeiro nunca é silencioso. Pelo contrário. É o mês em que reaparecem dores antigas, lesões mal resolvidas, inflamações que estavam “quietas” e desconfortos que foram ignorados ao longo do ano. Não porque o corpo esteja pior, mas porque voltou a ser exigido. A retomada revela o que foi acumulado.
Há algo de simbólico nisso. A cultura do “ano novo, vida nova” cria uma expectativa artificial de ruptura. Como se bastasse decidir para que tudo se reorganize. Mas saúde não funciona por decreto. Corpo não responde a promessas. Ele responde a carga, repetição, adaptação, ou à falta delas.
Janeiro cobra coerência. Cobra continuidade. Cobra honestidade com a própria história recente.
Quem treinou ao longo do ano, mesmo com pausas, retorna com menos risco. Quem manteve algum nível de atividade física, mesmo imperfeito, sente menos o impacto da volta. Quem respeitou limites colhe essa decisão agora. Já quem apostou no “depois eu resolvo” costuma pagar a conta justamente neste mês.
E aqui entra um ponto que incomoda: janeiro não é o momento ideal para grandes revoluções corporais. É um mês de ajuste fino, não de transformação radical. O corpo está retomando o ritmo, não pedindo agressões. Ainda assim, vemos o oposto: cargas excessivas, metas irreais, treinos intensos demais para quem ficou parado. A empolgação inicial costuma durar pouco, e, às vezes, termina em lesão.
Talvez porque confundimos retomada com compensação. Como se fosse possível “pagar” em janeiro tudo o que foi negligenciado em meses. Não é. O corpo não aceita parcelamento retroativo.
Retomar é diferente de recomeçar. Retomar pressupõe história. Supõe continuidade. Supõe reconhecer onde se parou e seguir dali, não de um ponto imaginário de perfeição que nunca existiu.
Há também um aspecto emocional neste mês. Janeiro exige foco quando a mente ainda está dispersa. Exige produtividade quando o ritmo interno ainda é lento. Esse descompasso gera tensão, irritabilidade, fadiga. E o corpo, mais uma vez, manifesta.
Não é coincidência que dores musculoesqueléticas tenham forte relação com períodos de transição. O corpo é profundamente sensível a mudanças abruptas de rotina. Sono, alimentação, postura, carga de trabalho, nível de atividade física, tudo muda de uma vez. Janeiro é um laboratório dessas mudanças.
Por isso, talvez o melhor uso desse mês não seja traçar grandes promessas, mas fazer boas retomadas. Voltar a caminhar antes de correr. Reorganizar horários antes de aumentar carga. Ajustar expectativas antes de se frustrar.
Janeiro é menos sobre começar algo novo e mais sobre voltar a cuidar do que já existe.
Essa perspectiva muda tudo. Tira o peso da perfeição e coloca o foco na constância. Substitui a ansiedade da mudança pela maturidade da continuidade. E, curiosamente, costuma gerar resultados melhores.
O corpo gosta de previsibilidade. Gosta de progressão. Gosta de respeito. Ele não exige motivação, exige regularidade.
Talvez seja por isso que tanta gente abandona as promessas ainda no primeiro trimestre. Elas nascem grandes demais para um corpo que só precisava de constância. Janeiro não pede heroísmo. Pede método.
E há algo libertador em aceitar isso. Não precisamos reinventar nossa vida todo dia 1º de janeiro. Precisamos apenas retomar aquilo que já sabíamos que funcionava, e que foi deixado de lado.
No fim das contas, janeiro é um mês honesto. Ele não engana. Ele apenas revela. Revela o que foi cuidado e o que foi negligenciado. Revela a diferença entre expectativa e realidade. Revela que saúde é um processo contínuo, não um evento anual.
Se há uma decisão inteligente para este início de ano, talvez seja essa: menos promessas, mais retomadas. Menos ruptura, mais coerência. O corpo agradece. E costuma responder melhor do que qualquer empolgação passageira.
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