O que eu aprendi com meus pacientes em 2025
Parte do nosso papel hoje é ajudar o paciente a escolher o que não fazer. Explicar que nem toda lesão precisa de cirurgia
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Todo fim de ano traz uma espécie de silêncio diferente. Mesmo antes das férias, algo muda no ritmo das pessoas. As consultas ficam mais carregadas, as perguntas menos objetivas, as dores menos localizadas. O paciente fala do joelho, do tornozelo, do ombro, mas, muitas vezes, o que está ali não é só ortopedia. É cansaço acumulado, expectativa frustrada, medo do tempo passando.
Se existe algo que o ano passado deixou claro é que, apesar de toda a tecnologia disponível, de todos os exames sofisticados e técnicas cirúrgicas avançadas, a medicina continua sendo um encontro entre pessoas. E é nesse encontro que os maiores aprendizados acontecem.
Aprendi, mais uma vez, que o paciente raramente chega apenas com uma queixa. Ele chega com uma história. Às vezes bem contada, às vezes confusa, às vezes interrompida pelo pouco tempo que ele acha que tem direito. Quando conseguimos escutar além do sintoma, o diagnóstico costuma ficar mais simples, mesmo quando o tratamento não é.
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Aprendi que dor não é apenas uma medida objetiva. Dois pacientes com o mesmo exame podem viver realidades completamente diferentes. Um tolera, o outro sofre. Um se adapta, o outro se paralisa. E nenhum deles está errado. A dor carrega contexto: emocional, social, profissional. Ignorar isso empobrece qualquer conduta.
Aprendi também que o tempo é, talvez, o recurso mais subestimado da medicina. Não o tempo cirúrgico, cronometrado em minutos, mas o tempo da escuta. Muitas decisões difíceis se tornam mais claras depois de alguns minutos de silêncio, quando o paciente percebe que não precisa correr para falar, nem competir com a agenda.
O ano passado reforçou algo que já vinha ficando evidente: o excesso de informação não trouxe, necessariamente, mais segurança. Muitos pacientes chegam munidos de laudos, vídeos, opiniões conflitantes. Sabem nomes técnicos, técnicas novas, promessas milagrosas. Mas chegam inseguros. Informação sem filtro não tranquiliza; muitas vezes, angustia.
Aprendi que parte do nosso papel hoje é ajudar o paciente a escolher o que não fazer. Explicar que nem toda lesão precisa de cirurgia. Que nem toda cirurgia precisa ser feita agora. Que esperar, observar, fortalecer e acompanhar também é tratamento, embora isso raramente renda manchetes ou posts chamativos.
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Aprendi que frustração faz parte do processo terapêutico, e que tentar eliminá-la a qualquer custo costuma gerar mais problemas do que soluções. Há limites para a recuperação, para a técnica, para o corpo. Quando isso é dito com honestidade, o paciente sofre menos do que quando alimentamos expectativas irreais.
O ano passado também ensinou muito sobre envelhecer. Não apenas no sentido cronológico, mas funcional. Vi pacientes jovens com corpos exaustos e pacientes mais velhos com uma relação surpreendentemente madura com suas limitações. Envelhecer bem parece ter menos relação com idade e mais com a forma como se lida com o próprio corpo ao longo do tempo.
Aprendi que o retorno à atividade física continua sendo um dos momentos mais delicados do tratamento. Não por falta de protocolos, mas por ansiedade. O desejo de voltar rápido quase sempre é maior do que a disposição para respeitar etapas. E, muitas vezes, o medo de parar é maior do que o medo de se machucar de novo.
Vi, mais uma vez, que os excessos cobram seu preço. Não apenas no esporte, mas no trabalho, no ritmo de vida, na dificuldade de parar. O corpo avisa antes de falhar. Dói antes de romper. Incomoda antes de impedir. Mas aprendemos, culturalmente, a ignorar sinais até que eles se tornem impossíveis de contornar.
Aprendi também com os pacientes que desistiram. Da cirurgia, do tratamento, do seguimento. Alguns por melhora espontânea, outros por cansaço, outros por frustração. Nem toda desistência é falha médica. Às vezes é uma escolha legítima, que precisa ser respeitada, mesmo quando não é a que gostaríamos.
O ano passado me lembrou que confiança não nasce de promessas, mas de coerência. De explicar a mesma coisa quantas vezes for necessário. De alinhar discurso e conduta. De reconhecer limites. O paciente percebe quando o médico está mais preocupado em acertar do que em parecer infalível.
Aprendi, talvez mais do que qualquer técnica nova, que o vínculo continua sendo terapêutico. Não resolve tudo, não substitui cirurgia, não cura lesões complexas, mas muda a forma como o paciente atravessa o processo. E isso faz diferença.
Ao final do ano passado, percebi que aprendi menos sobre doenças novas e mais sobre pessoas. Sobre como lidam com dor, expectativa, tempo e frustração. Sobre como buscam respostas rápidas para problemas lentos. Sobre como, no fundo, querem ser ouvidas antes de serem tratadas.
Se existe um balanço honesto a fazer, é este: a medicina segue avançando, mas o essencial permanece. Escutar, explicar, acompanhar. O resto muda com o tempo. Isso, não.
Talvez o maior aprendizado de 2025 tenha sido aceitar que não controlamos tudo, nem o corpo, nem os resultados, nem o ritmo da vida. Mas podemos escolher como estar presentes no cuidado.
E, no fim das contas, é isso que os pacientes mais ensinam: que ser médico não é apenas resolver problemas, mas caminhar com alguém enquanto eles existem.
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