
Ortopedia no esporte amador e profissional: o que muda?
Seja você um corredor de fim de semana ou um atleta de elite, o mais importante é entender que cuidar do corpo é parte do jogo
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A prática esportiva, seja ela amadora ou profissional, é fundamental para a promoção da saúde, bem-estar físico e mental. No entanto, a intensidade, frequência e exigências técnicas envolvidas em cada nível de atividade esportiva geram demandas diferentes sobre o sistema musculoesquelético. Mas afinal, o que realmente muda entre a ortopedia aplicada ao esporte amador e ao esporte profissional?
Uma das diferenças mais marcantes entre atletas profissionais e amadores é a carga de treinamento. Enquanto o atleta amador costuma praticar esportes de forma recreativa, com sessões mais espaçadas e menos intensas, o profissional está submetido a rotinas de treinos diários, muitas vezes com várias sessões por dia e monitoramento rigoroso.
Essa alta carga de treinamento aumenta significativamente o risco de lesões por sobrecarga, como tendinites, fraturas por estresse, bursites e síndromes de impacto. Na ortopedia esportiva profissional, há um foco constante na prevenção e monitoramento precoce dessas condições, utilizando ferramentas como exames de imagem preventivos, testes funcionais e avaliações biomecânicas.
No contexto amador, a sobrecarga também ocorre, principalmente, quando há falta de preparo físico adequado, retorno precoce após longos períodos de inatividade ou exagero pontual — por exemplo, em eventos esportivos como corridas de rua. Contudo, a percepção do risco e o suporte médico geralmente são mais limitados.
Saúde x performance
Enquanto o foco do atleta amador costuma ser a saúde, a qualidade de vida e a retomada segura das atividades, o atleta profissional tem como prioridade o desempenho esportivo e a continuidade da carreira. Essa diferença muda completamente a abordagem ortopédica.
Em atletas profissionais, muitas vezes é necessário tomar decisões difíceis: continuar competindo com dor controlada, adiar cirurgias até o fim da temporada, ou mesmo acelerar protocolos de reabilitação — sempre com acompanhamento rigoroso. O equilíbrio entre o retorno precoce e o risco de agravar a lesão é uma equação delicada, que exige experiência, conhecimento técnico e sensibilidade do ortopedista.
Lesões mais comuns
Embora haja certo padrão de lesões que se repetem tanto no esporte amador quanto no profissional, o perfil e a gravidade geralmente variam de forma significativa.
Nos praticantes amadores, são mais comuns as lesões de baixa complexidade, como entorses de tornozelo, tendinites, lombalgias e fascite plantar. Em muitos casos, essas lesões decorrem de aquecimento inadequado, uso incorreto de calçados ou retorno precipitado após longos períodos de sedentarismo. Além disso, há uma tendência a negligenciar dores iniciais, o que contribui para o agravamento do quadro clínico.
Já no ambiente profissional, as lesões tendem a ser mais complexas e exigentes em termos de diagnóstico e tratamento. Rupturas ligamentares, fraturas por estresse, lesões musculares graves e desgastes articulares são frequentemente observados. Isso se deve à intensidade da atividade física, à sobrecarga crônica e às exigências específicas de cada modalidade. O acompanhamento ortopédico próximo é essencial para minimizar os impactos dessas lesões na performance e na longevidade da carreira do atleta.
Tempo de recuperação e pressão pelo retorno
No esporte profissional, o tempo é um recurso valioso. A pressão para retornar o mais rápido possível — seja por contratos, calendário competitivo ou patrocínios — impõe um desafio ético e técnico aos ortopedistas e fisioterapeutas. Muitas vezes, o retorno ao esporte ocorre ainda com a lesão cicatrizando, o que aumenta o risco de recorrência.O atleta amador, por sua vez, tem a vantagem de poder se recuperar com mais calma, desde que haja consciência e orientação adequada. No entanto, é comum o praticante de fim de semana retomar a atividade antes do tempo, por impaciência ou desinformação, o que também pode agravar lesões inicialmente simples.
A cultura da prevenção
Por incrível que pareça, a prevenção é mais presente no ambiente profissional. Os atletas de alto rendimento seguem rotinas preventivas diárias, como alongamentos, fortalecimento muscular específico, controle de carga e avaliação contínua da postura e técnica.
Já no esporte amador, a cultura da prevenção ainda é incipiente. A maioria dos praticantes inicia atividades físicas sem avaliação médica prévia, sem aquecimento adequado e sem considerar o preparo físico necessário para evitar lesões. Esse comportamento, embora comum, contribui para o alto índice de lesões em academias, corridas de rua e esportes recreativos.
Papel do ortopedista
O ortopedista que atua com atletas profissionais muitas vezes trabalha dentro de clubes, equipes ou centros de treinamento, participando ativamente do planejamento da temporada, definindo protocolos de carga e acompanhando treinamentos.
No ambiente amador, o ortopedista atua geralmente como ponto de entrada após a lesão, sendo o responsável por orientar o tratamento e, sempre que possível, sugerir medidas de prevenção. O desafio aqui é estimular o paciente a buscar cuidados antes que a lesão se agrave — algo que passa por educação em saúde e conscientização sobre os riscos da prática esportiva não orientada.
Embora compartilhem o amor pelo esporte, atletas amadores e profissionais vivem realidades ortopédicas muito diferentes. Enquanto os profissionais têm à disposição estruturas robustas de suporte, tecnologia avançada e protocolos precisos, os amadores muitas vezes enfrentam limitações de acesso, informação e acompanhamento.
Seja você um corredor de fim de semana ou um atleta de elite, o mais importante é entender que cuidar do corpo é parte do jogo — e que a prevenção, em qualquer nível, é sempre o melhor caminho.
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As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.