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O Brasil de 2026 está exposto a duas ameaças existenciais que, se não forem resolvidas, podem ferir de morte nosso destino como nação. Uma é de origem externa e vai testar no limite a sabedoria de nossas lideranças e o caráter de nosso povo, únicas armas que teríamos, no presente, para proteger nossa independência, diante da força desproporcional que nos ameaça. A outra é uma contaminação inédita dos Poderes da República por uma entidade financeira em processo falimentar, cujo desvendamento parece ter potencial para deslegitimar nossas instituições.
A ameaça externa está expressa com todas as letras na nova Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos, documento que redireciona o foco da política externa e das preocupações de segurança do país para o hemisfério ocidental, deixando, por incrível que possa parecer, em segundo plano regiões como o Oriente Médio, a Ásia e a Europa e antagonismos com a Rússia e a China. Sua ideia é agrupar as Américas do Norte e do Sul e, eventualmente a Groenlândia, como uma única unidade geopolítica e garantir que a dominação dos Estados Unidos sobre toda esta extensão territorial não será mais questionada por ninguém. O corolário deste princípio é que doravante, como já foi no passado, o governo americano é a única força policial para todo o hemisfério.
A nova orientação não deixa espaço para qualquer ambiguidade e não faz concessões a princípios ou valores, deixando claro que o princípio organizador das relações hemisféricas será sempre o interesse econômico da nação americana, ao qual estarão subordinados os recursos, a infraestrutura e a economia de todos os países do continente.
Dado o poder militar e econômico dos Estados Unidos, esta nova posição coloca desafios nunca imaginados para o Brasil. Somos o país com mais recursos de toda a região e com uma dimensão econômica que nos obriga a ter relações com todos os países do mundo, sendo praticamente impossível nos tornarmos uma economia anexada e subordinada aos interesses de uma “América em Primeiro Lugar”. Não temos recursos militares para fazer face a este tipo de ameaça, mas se formos uma nação unida em torno de sua independência e de sua liberdade, não seremos um alvo tão fácil como até agora tem sido a Venezuela. Para isto precisamos, mesmo que por emergência, deixar de lado a polarização atual. O Governo Federal tem que se tornar mais brasileiro e menos partidário e ideológico, estendendo pontes em todas as direções. Isto feito, quem recusar a unidade, para este fim exclusivo, estará a serviço de uma nação estrangeira, nada menos do que isto. Uma nação unida é muito forte.
A ameaça interna é o risco que correm as instituições republicanas com os indícios cada dia mais evidentes de envolvimento de uma extensa lista de autoridades na tentativa de usar seu poder institucional a serviço dos donos do Banco Master, em processo de liquidação por motivo de insolvência e de uma extensa lista de fraudes. O Brasil está acostumado com escândalos, mas este supera todos, dada a extensão das suspeitas, que só continuam apenas como suspeitas porque o Supremo decidiu ocultá-las até agora do conhecimento público. Não fosse a imprensa, a jornalista Malu Gaspar à frente, o ocultamento estaria completo.
Com a exceção do Banco Central e da Polícia Federal, nenhuma instituição relevante está fora de suspeita. Pelo que se tem lido e ouvido, a mobilização em defesa dos negócios suspeitos envolveria membros do Senado, da Câmara, do Supremo, do Tribunal de Contas e agora, até a Presidência, que nomeou para a Comissão de Valores Mobiliários um dirigente que, segundo a jornalista Adriana Fernandes, da Folha, brecou decisões da CVM que seriam desfavoráveis ao dono do Master.
Nossa república sobreviverá se o caso Master for completamente desvendado, em toda sua amplitude? Qual será o nível real de contaminação? Como a população brasileira vai encarar suas instituições e suas autoridades, se um único homem de dinheiro tiver sido capaz de tamanha devastação moral? A angústia das respostas não pode durar muito tempo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
