Fracassos que são um sucesso
A mensagem é milenar: ninguém fica no topo ou por baixo o tempo todo
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“O sucesso às vezes é resultado de uma série de fracassos.” A famosa frase de Van Gogh, que consta nos muitos produtos que são vendidos no museu que leva seu nome em Amsterdã, expressa uma verdade. O caminho para o sucesso – termo inclusive bastante relativo – não é linear.
“A Fortuna é a rainha do mundo (Fortuna Imperatrix Mundi)” é uma frase medieval do poema musicado por Carl Off em Carmina Burana. A peça é conhecida no repertório das salas de concerto em todo o mundo e está frequentemente nas trilhas de filmes, inclusive os de Hollywood. Fortuna aqui não quer dizer dinheiro, mas sorte.
A Roda da Fortuna é o arcano (mistério) número dez do Tarô: no desenho da carta, de um lado uma pessoa sobe a roda e do outro uma pessoa desce. É há uma terceira no meio também, a que compreende este fluxo e fica acima dele. A mensagem é milenar: ninguém fica no topo ou por baixo o tempo todo. A roda gira.
Restaurantes e chefs premiados são esquecidos, modismos e tendências são volúveis como o próprio nome sugere. A vaidade não é recompensada, prêmios não pagam contas e o público volátil está sempre à espera de novidades.
É conhecido que Van Gogh morreu sem vender um único quadro. Fernando Pessoa só publicou um livro em vida e sem repercussão. Cézanne deu um quadro de presente a um cocheiro que o esqueceu no chão e foi embora. Hoje em dia são incontestáveis ícones culturais e o valor de suas obras é inestimável. São fracassos que são um sucesso.
O salão dos recusados dos impressionistas juntou muita gente talentosa banida pelos cânones da academia. Rembrandt esteve atolado em dívidas e, mesmo sendo despejado, seguiu pintando. Richard Wagner teve que mudar de países para fugir de credores e mandava cartas a possíveis mecenas dizendo que eles teriam o privilégio de lhe emprestar dinheiro para possibilitar a sua obra.
No final o rei Ludwig da Baviera, que havia construído para si mesmo um castelo onde homenageava as obras do compositor – o castelo da Cinderela da Disney teve inspiração neste –, financiou o teatro de Bayreuth e uma mansão para Wagner, que mandou gravar no pórtico a frase “A Paz da Ilusão”.
Na gastronomia e no vinho, muitas descobertas que deram errado acabaram sendo um sucesso. Dom Perignon detestava o champanhe que ele criou por acaso. A frase “estou bebendo estrelas” é fictícia, ninguém estava lá para ouvir.
Na verdade, ele tentava criar um tinto para competir com os pinot noir da Borgonha para vender para os mercadores de Flanders que passavam por Champagne rumo ao oriente. Acontece que a região era fria, o branco funcionava melhor que o tinto e o vinho teimava em espumar pelo gás incômodo. A aristocracia inglesa adorou a novidade, que acabou conquistando a corte francesa.
Diz a lenda que as irmãs Tatin esqueceram de colocar a massa para a torta de maçã e acabaram a colocando por cima. A tarte tatin é uma das tortas mais lendárias do mundo.
O primeiro prato flambado também foi um erro. Teria surgido pelo descuido do chef francês Henri Charpentier no fim do século 19 que, ao preparar o crepe Suzette para o príncipe de Gales e futuro rei Eduardo VII, o conhaque na frigideira pegou fogo.
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Cozinheiro experiente profissional ou amador sabe que é importante atuar sobre o prato. Dar certo ou dar errado é uma questão de interação com a receita, tirar ou colocar algum ingrediente que está a mais ou de menos, corrigir temperos e até mudar o nome do prato. Assim nascem deliciosas criações.
Modas vão e vêm. O público sempre reconhece a boa comida que fica por séculos.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
