Regina Teixeira da Costa
Regina Teixeira Da Costa
Em dia com a psicanálise

A civilização do gozo

Se hoje as coisas andam mal, não é só porque a vida é mesmo assim, mas porque o homem é rebelde à perda de seu pleno prazer, à administração de seu egoísmo

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Civilização é o estágio mais avançado da sociedade humana, caracterizada pela fixação em um território onde é realizada a construção das cidades num estágio evolutivo. A passagem para o sistema social, econômico e tecnológico organizado substituiu os caçadores-coletores, agricultores e pastores com a formação de cidades, ou a civilização.

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As civilizações divergem de acordo com os diversos sistemas de crenças, políticas e ideias e são importantes para a proteção da população. Essa união proporciona realizações e instituições mais elevadas culturalmente. Para isso, o valor da felicidade deve ser repensado.

A civilização é considerada de alto nível quando funciona em proveito do homem e para seu sustento, a partir de reservas naturais, com a fabricação de moradias, hospitais, instrumentos e aparelhos para diversos fins, medicamentos, meios de transporte. Também constrói praças floridas, jardins, beleza e arte. Oferece organização e limpeza, além de atividades intelectuais: estudo, ciência, filosofias, sistemas religiosos. Entre utilidades e obtenção de prazer, vamos nos regulando.

Na civilização, portanto, é imprescindível que haja regulação das relações humanas. As relações sociais devem se orientar pela educação, a maneira possível de lidar com os que dividem os mesmos espaços.

O coletivo é a prioridade e está acima das vontades individuais. O poder de cada um deve ser restringido em prol de todos, além de regido pela lei para que não haja abuso do mais forte sobre o mais fraco.

Nas palavras de Freud, a satisfação irrestrita de todas as necessidades se apresenta como a maneira mais tentadora de conduzir a vida, mas significa pôr o gozo à frente da cautela, trazendo logo seu próprio castigo.

A satisfação ao exercer o impulso instintual selvagem, não domado pelo eu, é incomparavelmente mais forte do que a obtida ao saciar um instinto domesticado. O caráter irresistível dos impulsos perversos talvez seja a causa do fascínio pelo proibido. Porém, civilização significa também civilizar exatamente esse gozo perverso fruído pelo indivíduo, por respeito a todos.

Por isso, o conceito de gozo é muito importante para a psicanálise. E civilizar o gozo é questão de prioridade. É papel dos pais e educadores civilizar desde cedo as crianças, para que saibam seu lugar na sociedade e não se desviem do que é considerado seguro e equilibrado no convívio com seu mundo e aqueles que as cercam.

Por gozo entendemos os excessos que cada um de nós guarda dentro de si, aos quais não devemos, e nem podemos, dar vazão. A contenção de certos impulsos primitivos e infantis pela educação é imprescindível. É lamentável que as pessoas se julguem no direito de relativizar essa administração. Melhor que seja administrada com amor e firmeza dentro de casa, antes que o mundo nos corrija com dureza, fracassos e até mesmo punições.

Assim, a administração do gozo, da propensão do homem à crueldade, agressividade, descontrole emocional, desonestidade e à perversão deve vir do berço, para que seja assimilada, impedindo o sofrimento, a infelicidade e até a desadaptação do sujeito a qualquer tipo de convivência possível, seja familiar, social ou política.

Se hoje as coisas andam mal, não é só porque a vida é mesmo assim, mas porque o homem é rebelde à perda de seu pleno prazer, à administração de seu egoísmo e por se permitir fruir livremente tudo que lhe apraz, independentemente do mal que cause a outrem. Estes tempos são de excessos e acumulação. Querem tampar todas as faltas e vazios. Vem daí o mal-estar na civilização.

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Se há desequilíbrio, é porque não houve a famosa e indispensável castração, sinônimo de educação. E ela falha porque os próprios pais desejam realizar todas as vontades dos amados filhos. Eles não percebem seus defeitos, não compreendem que protegê-los em excesso significa fracasso no futuro. Deixam o não ao encargo do mundo. E isso ocorrerá com sofrimento e infelicidade, porque o mundo não vai passar a mão na cabeça do amadinho de mamãe e papai. Ah, não vai não...

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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