Um processo delicado
O tratamento analítico não é fácil. A análise não se funda em explicações racionais ou intelectuais, mas em outro tipo de saber. Um saber inconsciente
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A sensibilidade para perceber a singularidade de cada um requer escuta cuidadosa. Nenhum paciente é igual a outro. O mais íntimo de cada um, mesmo quando identificado com traços do outro paterno ou materno, é único e há um ponto, uma letra própria que o representa. Um ponto que nem mesmo o sujeito reconhece.
O tratamento analítico não é fácil, porque implica em se deixar ver até nisso, que não sabe de si. No divã, a racionalidade não importa tanto quanto a palavra livre. A análise não se funda em explicações racionais ou intelectuais, mas em outro tipo de saber. Um saber inconsciente.
Esse saber não se sabe que sabe. No entanto, ele é preciso, a mais incerta palavra nos conduz à sua lógica, outra, como a terceira margem do rio de Guimarães Rosa. Essa margem só pode ser alcançada pela livre associação das palavras. Falar o que passa na cabeça, sem crítica, o que aprendemos a censurar quando falamos sem pensar, temendo falar bobagens. Na análise, nada pode ser considerado bobagem, ao contrário, a bobagem interessa.
Também é frequente que as palavras faltem, ou se acredite que nada há de importante a ser relatado. Porém, são justamente as palavras incertas, as que passeiam espontaneamente, que mais colaboram conosco.
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Se o silêncio se instala no momento em que o que se espera são palavras, isso pode significar o temor em deixar escapar algo preso, esquecido, recalcado no inconsciente. Dali emergem palavras que, pela ressonância fonemática, apontam o que interessa. Sim, através dos sons das palavras, e não apenas do seu significado.
Pela sonoridade das palavras, pescamos verdades. Disse Shakespeare, em “Hamlet”, que com uma isca de falsidade pescamos uma carpa de verdade. Por isso, as palavras oferecidas são valiosas para que se ressignifiquem as repetições, tropeços, prejuízos, escolhas, enfim, algo da fantasia fundamental de cada um, que é velada, inconsciente.
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Quanto ao analista, há diferença entre o silêncio e o se calar. São ferramentas fundamentais na espera de captar o que é o mais íntimo nas entrelinhas do discurso: a singularidade que cada um traz. Muitos se queixam do silêncio, se sentem constrangidos e até desistem do tratamento por isso.
O analista silencia e se cala para permitir a precipitação das palavras presas em momentos cruciais. Igualmente, não pode se calar quando sua intervenção impede atos desastrosos ou prejuízos para o cliente.
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Então, o que se espera de um analista, o que ele oferece a partir da escuta do saber inconsciente, lógico, é o desejo que determina o sujeito, a causa do desejo, da qual não se tem ideia.
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Ele só pode ser alcançado pela escuta do falar “o que dá na telha”. É ele que o analista oferece para o cliente. A singeleza da prática clínica só se atinge quando se domina a teoria e se sabe como fisgar o que se há de pescar.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
