Paulo Rabello de Castro
Paulo Rabello De Castro
PAULO RABELLO DE CASTRO

As Tordesilhas de Donald Trump

Meio milênio após aquela iniciativa de conquista, o globo terrestre – e tudo que há nele – ainda é disputado de maneira semelhante

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Em 1494, recorrendo ao “direito internacional” daquela época – personificado no Papa da Igreja de Roma –, Portugal e Espanha estabeleceram a divisão do Novo Mundo, então largamente desconhecido, entre o oeste e o leste de um meridiano imaginário. Na geopolítica dos reis ibéricos, a esfera terrestre, dividida em duas metades, pertenceria às respectivas coroas. A bula papal, divisora do Novo Mundo, foi assinada na cidade espanhola de Tordesilhas, daí o nome de batismo do Tratado, dando origem ao Brasil que hoje somos e a nossos vizinhos na então América Espanhola até as Montanhas Rochosas, hoje parte dos EUA.

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Meio milênio após aquela iniciativa de conquista, o globo terrestre – e tudo que há nele – ainda é disputado de maneira semelhante, embora com novas armas e narrativas. Um desses protagonistas de conquista é a América de Donald Trump, e outra potência é a China de Xi-Jinping, embora haja outros atores na disputa, como a velha Europa, o Islã, o “Império russo” e até a Índia (ver Quadro). Num passado não distante, também estaria o Japão. Portanto, para entender melhor as ações do atual presidente norte-americano, antes de se recorrer aos impropérios ou aos elogios baratos que, em geral, acompanham sua figura de ator canastrão, precisamos enquadrar as ações de Trump num contexto de projeção histórica, daquilo que ainda vai acontecer em décadas futuras.

Trump reage a um mundo que já não é mais o que resultou da Segunda Guerra Mundial, onde o poder militar dos EUA ficou evidenciado no planeta inteiro (a Pax Americana), cujo momento mais afirmativo se deu pelo desmanche do bloco soviético que confrontava o domínio dos EUA. A Pax Americana durou pouco, apenas os anos necessários para a afirmação econômica, tecnológica e militar de um novo ator mundial, a China, com sua forma peculiar de dominação “suave”. Ao mesmo tempo, o império americano veio perdendo força financeira e projeção geopolítica, especialmente após a grande recessão após a bolha financeira de Wall Street (2008). Os EUA são hoje uma nação atormentada pelo fantasma das suas “contas a pagar”, pois a dívida federal mais do que dobrou e continua ameaçando a “grandeza” esperada pelo povo daquele país.

Trump é um líder que compreendeu bastante bem esse drama da rápida perda de protagonismo dos EUA. Não é outra a razão do seu lema de campanha ser “Vamos resgatar a grandeza da América”. Nesse sentido, a proteção territorial, a unidade de propósitos interna, o reforço das bases comerciais e financeiras do país, tudo isso passa a ser prioridade na agenda de longo prazo dos EUA, superando considerações sobre acolhimento de migrantes, meio ambiente, fronteiras de outros países, tratados assinados por outras administrações e até dívidas e compromissos assumidos no passado. Isso bate de frente contra o mundo das leis e dos princípios de convivência internacional lavrados no pós-guerra, que deram origem a organismos multilaterais como ONU, Banco Mundial, FMI, OMC, hoje figurativos ou pré-falimentares. Trump apenas escancarou uma realidade que precede a seus ataques demolidores de crenças e agências. Como empresário da construção, Trump vem demolindo o que encontra no caminho, na expectativa de construir algo novo, à sua maneira. Melhor ou pior, pouco se sabe. Mas a pergunta se torna quase irrelevante diante dos fatos por ele consumados.

Trump tem pressa pois seu relógio político e biológico corre muito mais rápido do que na China de Xi. Daí o aparente atropelo das ações por ele iniciadas no cenário mundial. Mais do que a razão do petróleo – que é forte –, a intervenção na Venezuela atende à pressão do relógio de Trump. As Tordesilhas de Trump não podem esperar por bula papal. Tampouco pode demorar o tema da Groenlândia, como também foram criados “deadlines” de tempo para a solução dos conflitos em Gaza e na Ucrânia, bem como a provável mudança de regime no Irã. Sobre o interesse econômico e militar na enorme ilha gelada do Ártico, Trump oferece dinheiro ou disputa. Nesse particular, a atitude do presidente dos EUA não destoa do histórico daquela nação expansionista. Pouca gente sabe que o percentual de área territorial dos EUA, incorporado por compra em dinheiro ou por conquista armada, a partir do tamanho original do país na época de sua independência, corresponde a nada menos do que 72% do seu tamanho atual, sendo deles, 56% do território incorporado por compra e cerca de 16% pelas armas. Em comparação, o vasto território do Brasil, quase do tamanho do norte-americano, teve apenas cerca de 9,5% incorporados por compra ou guerras, sendo o restante incorporado por “uti possidetis” e diplomacia (Barão do Rio Branco). Representamos, no Brasil, uma outra realidade, bem distante da do mogul norte-americano. Nutrimos, portanto, uma grande estranheza histórica e cultural pelo modo norte-americano de agir.

O Brasil – um “solteirão no baile – precisa, urgentemente, de um plano para se inserir no mundo de blocos de poder em que se fracionarão as nações num futuro quase presente. O Brasil teria recursos de poder para almejar uma vice-liderança no “hemisfério ocidental”, como voltou a se denominar o quintal dos EUA. Um amplo acordo com o bloco europeu poderia facilitar essa projeção do Brasil. O problema é a pequenez das lideranças da hora. O país do “Careca do INSS” e da chicana em torno do banco Master não parece ser o perfil de uma nação capaz de inspirar respeito e audiência. Esse é nosso drama.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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