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Luiz Carlos Azedo
ENTRE LINHAS

Uma história do jazz, a decadência política e a blindagem eleitoral

Poucos cidadãos sabem citar o nome de um parlamentar, há um profundo divórcio entre representantes e representados

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No fim dos anos 1950, Dale Turner, um saxofonista negro americano, toca todas as noites no Blue Note, em Saint-Germain. É um alcoólatra. Basta que escape à vigilância dos amigos e ele vai parar no hospital. Como é comum nesses casos, num determinado momento entra em colapso. Francis, apaixonado admirador do músico de vanguarda, assume plena responsabilidade sobre ele e Dale aos poucos volta a tocar. Mas as raízes, a sua solidão e seus medos o levam de volta a Nova York, onde morre.

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O filme por “Por volta da meia-noite” (“Round midnight/Autour de minuit”, 1986), de Bertrand Tavernier, conta essa história. É inspirado nas vidas de Bud Powell (e Lester Young), interpretado por Dexter Gordon em pessoa, e Francis Paudras, vivido pelo ator francês François Cluzet. Jazz raiz, destaca-se o trabalho de grandes músicos, como Herbie Hancock, que atua no filme como Martin Scorsese. É um filme de decadência, e não de ascensão. Os grandes músicos de jazz dessa era, quase todos negros, a despeito do talento até hoje reconhecido, viveram em condições por vezes degradantes.


Parece que viajei na batatinha. O que isso tem a ver com a nossa política? Na década de 1950, a vida norte-americana foi marcada por graves crises internas de valores e liberdades. O macarthismo promoveu uma “caça às bruxas” que sufocou o debate democrático, enquanto o conservadorismo emergente combateu o liberalismo tradicional. A profunda segregação racial marginalizou milhões de cidadãos.


Liderada pelo senador republicano Joseph McCarthy, a política externa de contenção ao comunismo transformou-se em histeria interna. O medo da “ameaça vermelha” levou à perseguição de funcionários públicos, intelectuais e artistas, minou o respeito às liberdades civis e à Constituição. A imagem de uma democracia exemplar esmaecia no racismo institucionalizado. Apenas na segunda metade da década, com o boicote aos ônibus de Montgomery em 1955 liderado por Rosa Parks, o movimento por direitos civis emergiu.


O sistema bipartidário norte-americano fora reconfigurado com o fortalecimento de alas conservadoras, focadas no combate ao comunismo e na subversão do liberalismo do New Deal. Essa polarização limitou reformas sociais mais amplas. A Doutrina Truman e a Guerra da Coreia (1950-1953) exigiram grandes mobilizações de recursos e expandiram a influência do complexo militar-industrial, o que gerou contestações sobre o papel dos EUA como “polícia do mundo”. Mais ou menos como agora.


Falta de sintonia

Aqui no Brasil, pesquisa Datafolha divulgada há poucos dias revelou um cenário alarmante para a democracia brasileira: 68% dos eleitores não conseguem citar o nome de um único deputado federal em exercício, e 75% não se lembram de nenhum senador. Quase 70% dos entrevistados também não se recordam em quem votaram para cargos do Poder Legislativo federal nas eleições de 2022. Por que isso acontece?


A política institucional, como os Poderes republicanos, nunca foi muito popular. Os partidos e os políticos parecem habitar um planeta distante, descolado da realidade brasileira. Com as sessões virtuais, já não há debates acalorados nos plenários da Câmara e do Senado, tudo é decidido na base da transa, no colégio de líderes e em votações relâmpagos, às vezes por volta da meia-noite (eis aqui a batatinha).


Os tratos e acordos feitos nos corredores do Congresso, dos gabinetes dos ministros e governantes e dos tribunais visam somente o atendimento de interesses privados de quem detém o poder político e/ou econômico. O Congresso virou um balcão de negócios, o paraíso do patrimonialismo. O caso Master e as relações perigosas com o banqueiro Daniel Vorcaro espantam pelos bilhões envolvidos, mas não pelo modus operandi que hoje predomina na Câmara e no Senado, que foram naturalizados.


A maioria dos políticos só se sente vinculada aos cidadãos quando há eleições. Hoje, não se debate mais nada, tudo parece decidido pelas lideranças do Congresso antes de chegar ao plenário, abruptamente, após articulações em reuniões fechadas. Salvo algumas exceções, os parlamentares comparecem ao plenário raramente, votam conforme a orientação de líderes ou de interesses pontuais e usam o tempo de fala não para formular ideias capazes de mobilizar o eleitorado, mas para produzir “cortes” para as mídias sociais. Os cidadãos são deixados de fora da política.

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O Datafolha mostrou que apenas meia dúzia de deputados, entre 513, foram citados por ao menos 1% dos entrevistados – e, mesmo assim, em geral por sua capacidade de “engajamento” no ambiente digital. Poucos cidadãos sabem citar o nome de um parlamentar, há um profundo divórcio entre representantes e representados. Mas os fundos partidário e eleitoral e as emendas parlamentares garantem a reeleição. Não existe “paridade de armas” entre quem tem e não tem mandato. O Congresso está blindado contra a renovação. A democracia de massas no Brasil só sobrevive por causa do voto direto nas eleições majoritárias e da urna eletrônica.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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