Brasil, 1964. Fim.
O Brasil vive as suas duas décadas do "dia da marmota", preso num período prá lá de espiado e exorcizado, sem conseguir ver nada antes, nem nada a frente
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Quando um país decide que sua história começou e terminou no mesmo lugar.
Dados da Escola de Comunicação e Artes da USP revelam algo curioso — e revelador — sobre o cinema brasileiro: a ditadura militar (1964–1985), um período de 21 anos numa história de mais de 500, concentra 61 obras de ficção e 65 documentários. A escravidão, que durou 388 anos e moldou cada centímetro do que somos, inspirou cerca de 12 filmes. A participação brasileira na Segunda Guerra, 1 filme. A Guerra do Paraguai — aquela em que perdemos proporcionalmente mais vidas do que qualquer país em qualquer conflito moderno —, 3 filmes. A Revolução de 32 e a Revolta da Vacina: zero.
Alguém escolheu. Ou, pior: ninguém precisou escolher, porque a escolha já estava feita, internalizada, institucionalizada.
O paralelo com a arquitetura pública brasileira é perturbador na sua exatidão. No mesmo período, o Estado brasileiro — nas suas diversas encarnações federais, estaduais e municipais — contratou, financiou e celebrou um punhado de nomes: Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, Vilanova Artigas e poucos outros, todos colocados na mesma prateleira, todos falando a mesma língua do concreto aparente, da marquise em balanço impossível e da planta livre suspensa no ar como manifesto político. O brutalismo não era apenas um estilo — era o idioma oficial do poder.
O resultado está nas fachadas das repartições, nos teatros, nos equipamentos culturais, nas universidades: um Brasil institucional que só se reconhece numa janela de duas décadas, como se o país tivesse nascido em 64 e amadurecido em 85, e tudo antes e depois fosse folclore ou promessa vaga.
Cinema e arquitetura pública, portanto, fizeram a mesma coisa: terceirizaram a identidade nacional para um grupo pequeno, coeso e bem relacionado com o Estado, que devolveu, em escala industrial, uma versão única e autorizada do que é ser brasileiro. A diversidade virou decoração. A história virou recorte.
Não é conspiracionismo — é algo mais banal e, por isso, mais preocupante: é o efeito manada elevado à política cultural. Quando o financiamento público, os editais, os prêmios e o prestígio apontam para o mesmo endereço, o mercado segue. E o que era tendência vira cânon, e o que era cânon vira verdade, e o que era verdade vira — pronto — identidade nacional.
388 anos de escravidão rendem 12 filmes. 21 anos de ditadura rendem 126 obras.
A bigorna da realidade, aqui, não é econômica — é cultural. E quando ela cai, a pergunta que fica é simples e desconfortável: que país é esse que só se reconhece num espelho quebrado, apontado sempre para o mesmo ângulo?
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Zumbi dos Palmares, a Princesa Isabel, os pracinhas da FEB, os revoltosos de 32 e as vítimas da Vacina estão esperando do lado de fora. Alguém abre a porta?
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
