
Escola cívico-militar: matando ideias antes de amá-las
Você sabe que a educação vai mal quando começa a cheirar a mofo de quartel
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O espírito brasileiro parece sentir atração pelo autoritarismo. A ideia de um pai-soberano, que se coloca acima da lei, parece ser a resolução de todos os problemas. Resquício da relação entre Casa Grande e Senzala, quando o dono de engenho, quase um senhor feudal, violentava a todos, mas nunca era culpado. A punição era direcionada à escrava que “seduzia” o “senhor inocente”. Não é de hoje que culpamos as vítimas pelos crimes sexuais.
Segundo Gilberto Freyre, essa relação de senhorio marca profundamente a sociedade brasileira, que não foi construída como um projeto de Estado, mas a partir das relações íntimas e privadas abraçadas pelo latifúndio como lugar do pater família, um rei. A ele, tudo; ao restante, o que ele decidir.
Esse namoro patriarcal-autoritário é um elemento que não pode ser descartado de primeira mão. Com todas as críticas que, justamente, fazemos a Gilberto Freyre, pelo fato de ter suavizado as violências sexuais – como se elas tivessem sido consentidas, propondo uma narrativa mítica sobre uma suposta democracia racial no Brasil, ele também nos ajuda a explicar muita coisa.
Na educação, por vezes, escutamos algum discurso autoritário, único e salvacionista em relação à escola, como se todos os nossos problemas pedagógicos fossem explicados por um inimigo comum e toda a salvação residisse em uma saída única.
Por aí que escutamos passivamente a narrativa das “metodologias ativas” e das “tecnologias de aprendizagem” como tábua da lei, espécie de bussola que abriria o Mar Vermelho da ignorância. Ao notar as nações recuarem diante desse propósito, começamos a perceber o erro, e a Lei que proíbe o uso de celular nos espaços escolares fez mais pela pedagogia brasileira do que qualquer debate acalorado dos últimos 20 anos.
O fiasco da Reforma do Ensino Médio não conseguiu diminuir a evasão escolar, muito menos tornar a aprendizagem mais atrativa. Na verdade, deu lugar ao “Curso de Brigadeiro Gourmet” e ao jogo “Como se tornar um milionário”, retirando aulas de História, Filosofia e Geografia. É engraçado como as humanidades sempre são atacadas desde o Golpe Militar de 64 e mesmo assim os resultados não vem. Será que é justamente por isso?
Escolas ou quartéis?
Agora, observamos com aflição o crescente discurso das Escolas Cívico-Militares como a salvação para os problemas da educação. Capitaneadas por um tipo de gente que afirma não saber de História, não conhecer Adélia Prado e insiste em comer banana com casca, mascando grotescamente o pobre alimento, a retórica de que pensamento militar é o mais apropriado para um projeto de nação ganha força.
No Brasil, a escola sempre foi vista como uma espécie de “remendo” para os problemas sociais.
Criminalidade na rua? Escola em tempo integral. Dificuldades econômicas? Educação financeira. Problemas com a violência? Militarismo pedagógico.
Você sabe que a educação vai mal quando começa a cheirar a mofo de quartel. As chamadas “escolas cívico-militares” são vendidas como o remédio para todos os males da juventude: disciplina, ordem, respeito, fardas passadas no ferro e corte de cabelo regulamentar. Um paraíso para quem acredita que a função da escola é produzir soldados obedientes, não cidadãos críticos. Parece até que tiraram o conceito direto de um manual pedagógico de 1938, mas com o charme tropical da banana e do feijão tropeiro.
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Theodor W. Adorno, no seu clássico Educação após Auschwitz, nos lembrava que a função primeira de qualquer sistema educacional, depois do horror, é impedir que o horror se repita. Parece simples, mas exige um pré-requisito: não transformar a escola em um adestramento para obediência cega. Auschwitz não nasceu do nada; foi parido por décadas de formação autoritária, de um currículo onde questionar era crime e obedecer era virtude suprema. Lá, como cá, a “disciplina” não era meio — era fim.
Nazismo
O nazismo, antes de ser tanques e campos de extermínio, foi um projeto pedagógico. A juventude hitlerista era moldada desde cedo para amar a pátria, desconfiar do vizinho e marchar em fila reta — nada muito diferente do que se quer ver hoje, quando políticos sorridentes falam em “recuperar valores” e “formar cidadãos de bem”, essa expressão mágica que, traduzida do eufemismo, significa “ensinar a não pensar e a respeitar hierarquias mesmo que elas nos esmaguem”.
Adorno alertava que a barbárie poderia voltar não com as mesmas botas, mas com outros sapatos — quem sabe um coturno lustroso ao lado de um uniforme azul-marinho, com brasão no peito e slogan motivacional na parede. A “educação após Auschwitz” exige o contrário: autonomia intelectual, sensibilidade, capacidade de reconhecer o outro como humano. Tudo isso é incompatível com o olhar fiscalizador que mede o aluno pela rigidez da postura e pela sincronia da saudação.
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A estética cívico-militar vende a ideia de ordem, mas por baixo dela pulsa a mesma lógica que Adorno denunciava: o medo do diferente, o culto à autoridade e a crença de que violência se combate com mais violência — só que agora com ares pedagógicos. O mais perverso é que tudo é embrulhado como “projeto de cidadania”. É como vender um campo de treinamento como “acampamento de férias” — a diferença é que, no primeiro, as crianças aprendem a matar ideias antes mesmo de aprender a amar as próprias.
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No fundo, trocar a liberdade de pensamento por disciplina cega é como trocar uma biblioteca por um quartel. Pode até ser mais silencioso, mas o preço é alto: o silêncio não é fruto da concentração, mas do medo. E, se há algo que Auschwitz nos ensinou, é que a obediência sem reflexão é o atalho mais curto para a barbárie.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.