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Bolo de fubá é o que há! 

Em um Brasil de juros altos, a receita básica vence a sofisticação. Um teste de 10 anos revela por que o Tesouro Direto ainda bate o Ibovespa no longo prazo.

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Por Daniel Loureiro

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O mercado de ações brasileiro vem testando novos limites desde meados do ano passado. No final de fevereiro, logo antes do início da guerra entre EUA-Israel e o Irã, a bolsa brasileira ultrapassou a máxima histórica de 192 mil pontos e acumulou ganhos superiores a 50% desde o final de 2024. Após uma leve esfriada nos ânimos por conta da guerra, a bolsa voltou a subir e recentemente rompeu novo recorde, acima dos 195 mil pontos. Parte dessa acelerada nos preços vem da entrada de novos participantes no mercado, que veem as ações se valorizando e pensam: “estou ouvindo que esse negócio de bolsa é quente; vou entrar nesse barco também.”

Com isso, a boa e velha renda fixa fica esquecida lá na bandeirinha de escanteio. A tentação de comprar ações nessa época de euforia é forte; o investidor pensa: “ah, os títulos de renda fixa estão pagando ‘só’ 15% ao ano, para que investir pra ganhar essa mixaria se eu posso comprar um pouco de ações e aproveitar que a bolsa tá subindo igual foguete?”

A lógica do risco no "custo Brasil"

Se o investidor der uma folheada em qualquer livro texto de finanças, iria ficar de olho aberto ao saber que buscar mais rentabilidade significa assumir mais riscos. Acontece que, como dizia o Maestro, “o Brasil não é para amadores”. Aqui, essa regra de retorno proporcional ao risco nem sempre é a que vale. Nos últimos trinta anos, os juros do país quase sempre foram de dois dígitos. E juros sobre juros, ou melhor, “juros altos” sobre “juros altos” são um fermento superpoderoso: ao colocar grana numa aplicação que rende 10% ao ano, o bolo dobra de tamanho depois de pouco mais de sete anos. Nesse cenário, para que o investimento em ações valha a pena no longo prazo, a bolsa tem que render bem, mas bem mesmo, e de forma consistente. A maré da economia tem que estar a favor, os astros do mercado, totalmente alinhados, e por muito tempo.

Receita simples, resultado garantido

Faz um tempão que eu tenho essa percepção de que para se investir num horizonte de longo prazo no Brasil, não precisa de nada muito sofisticado; chocolate belga, mascarpone italiano, favas de baunilha, mel de lavanda, não é necessário nada disso pra fazer um bolo de investimentos com sabor delicioso. Fubá de milho, farinha trigo, açúcar, leite e ovos bastam. Muita receita de dar água na boca pode ser feita com o que tem de mais básico.

Houve um período curto em que os juros foram jogados na lona. A taxa Selic chegou a 2% ao ano. Nessa época, eu comecei a achar que talvez estivéssemos nos aproximando dos países mais desenvolvidos. Lá, para que aplicação tenha mais retorno, não tem como fugir de investir em coisas mais arriscadas. Ou seja, se a turma quiser bolar mais gostosos, têm que investir em ingredientes de sabor mais complexo. Esse período já passou faz tempo, muita água já passou debaixo dessa ponte e, desde 2022, cá estamos nós com taxa Selic de dois dígitos novamente.

O teste das janelas de 10 anos

Recentemente um amigo meu me disse que estava querendo investir uma grana “no longo prazo” e me perguntou o que eu sugeria. Coerente com essa minha percepção e com o nível atual da Selic, minha resposta de bate-pronto foi: compra Tesouro Direto! Ele estranhou a simplicidade e a rapidez da resposta, e acho que não se convenceu muito do meu conselho não. Essa desconfiança dele desperto em mim a curiosidade de conferir se dava mesmo para botar a mão no fogo por essa crença. Resolvi então fazer um exercício, que tentou responder a uma pergunta simples: no longo prazo, qual aplicação rende mais: bolsa ou renda fixa? Bolsa sendo o investimento mais arriscado, renda fixa, o mais seguro. É claro que em cima de cada uma dessas duas prateleiras, tem um montão de bolos possíveis, cada um deles com diferentes ingredientes, riscos embutidos e, claro, promessas de retorno.

Pensei em responder a essa pergunta avaliando alternativas simples e fáceis de entender, tentando calçar o sapato do investidor comum, leigo. Isso tem a ver com outra crença minha, a de que o investidor brasileiro médio não tem tempo ou conhecimento técnico suficiente para fazer boas escolhas nessa confeitaria enorme que é o mercado financeiro. Ações, debêntures, título público, cripto, FII, COE, CRA, CDB, ETF, FIDC, LF, FX... haja tempo e disposição pra conhecer bem tudo isso e saber tintim por tintim o que significa essa sopa de letrinhas do mundo dos investimentos, além de conhecer quais as possibilidades de ganho e os riscos de cada um deles.

O perigo dos "chefs" de rede social

Hoje em dia, fica fácil encontrar uma receita de bolo por aí. As corretoras compartilham informações e relatórios de mercado, o WhatsApp, o TikTok e os gurus de finanças nos inundam de “informação”, a inteligência artificial está ali no celular a um clique de distância, prontinha pra te responder toda as suas dúvidas. Nem tudo isso é confiável e, apesar disso, com tanta informação em mãos, o investidor mediano acaba se sentindo um chef confeiteiro de mão cheia, capaz de tomar boas decisões de investimento de forma autônoma. Acho isso um perigo danado! Se o investidor médio soubesse fazer uma receita básica de bolo de fubá, já ia fazer a alegria da família no lanche da tarde. Nada complicado, nem espetacularmente delicioso e refinado, mas também com poucas chances de ouvir reclamações na mesa.

Renda Fixa: a campeã no longo prazo

Voltando ao exercício, tirei da minha cartola a ideia de que um investimento feito por dez anos seria uma boa coisa pra se chamar de “aplicação de longo prazo”. Feito isso, primeiro defini várias janelas de dez anos. A primeira delas tem dados que vão de março de 2007 a março de 2017. Depois, peguei a janela vizinha: abril de 2007 a abril de 2017 e assim por diante até a última janela, que foi de março de 2016 a março de 2026. Daí calculei o retorno acumulado do índice Ibovespa em cada uma dessas janelas.

No caso dos títulos de renda fixa, fiz um pouco diferente: para cada mês, peguei qual a rentabilidade de um título prefixado do Tesouro com vencimento em dez anos. Fiz isso para as mesmas janelas temporais que usei para calcular a rentabilidade da bolsa. Por fim, claro, comparei a rentabilidade das duas alternativas. Meu palpite era que a renda fixa ganharia das ações no longo prazo, ou seja, que o Tesouro Prefixado deveria render mais do que o Ibovespa na maioria das janelas de dez anos testadas. E foi batata! Em todas as janelas, comprar um título do tesouro prefixado de dez anos foi superior a investir na bolsa pelo mesmo período. Que marrravilha!

A superioridade da renda fixa sobre a bolsa vem diminuindo com o tempo, é verdade, especialmente desde meados de 2025, quando a bolsa deu uma boa acelerada. Mas mesmo que isso se reverta nos próximos meses, a história é bem consistente para ser desmentida assim de supetão. Por fim, como ‘longo prazo’ é um conceito um tanto subjetivo, resolvi refazer o exercício considerando um horizonte mais curto para ver no que dava. Assim, todas as contas foram refeitas, agora com janelas de cinco anos cada. Nesse caso, o resultado ainda é favorável à boa e velha renda fixa, ainda que de forma menos contundente: em cerca de 70% das janelas, investir num título do Tesouro prefixado de cinco anos ganha da rentabilidade do Ibovespa no mesmo período.

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Conclusão: botar a mão na massa e fazer um café

Em suma, o exercício mostrou que no Brasil nem sempre mais risco é sinal de maior retorno. Num país em que as taxas de juros são historicamente altas, quando se pensa em investir no longo prazo, talvez o melhor a se fazer na cozinha é desenterrar a receita da vovó, botar a mão na massa e fazer um bolo de fubá delicioso – e passar um bom cafezinho, por favor – e alegrar toda a família.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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