Chico Mendonça
Chico Mendonça
Chico Mendonça é jornalista (formado pela PUCMG em 1981), consultor de comunicação e escritor. São de sua autoria os livros "As Horas Esquecidas" (finalista do Prêmio Jabuti de 2018, com várias crônicas e contos publicadas no portal UAI) e o romance "A Vi
CHICO MENDONÇA

Enquanto respiro

A tese mais precisa sobre o tempo foi dita por uma padre na Espanha. "O tempo é Deus caminhando", disse ele, e nada mais acrescentou

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Do tempo, além dos riscos em minha pele, conheço muito pouco. Mas esse, o biológico, é o que menos importa. Falo do tempo da vida acontecendo: da respiração, da inspiração de tudo que há no éter, o oxigênio e as outras invisibilidades; da expiração e a troca de ares – os que dão cor e viço à paisagem e os que bafejam os mapas internos do autoconhecimento. O tempo de intercâmbio entre a luz dos dias e a luz se estabelecendo no vago da pessoa. Pode levar, esse infindável despertar, muitos anos ou milésimos de segundo, pode ser resultado das experiências acumuladas ou de um lampejo, o resultado do esforço pessoal ou o tempo da Graça. Acontece, mas não termina. Para esse tipo de tempo não há teorema ou corolário estabelecido porque sua natureza não tem medidas a serem tomadas nem padrões passíveis de observação. A tese mais científica que já ouvi sobre o assunto foi formulada por um padre de uma pequena igreja na Espanha a um amigo de passagem por lá: “O tempo é Deus caminhando”, disse ele, e nada mais acrescentou.

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Observo o tempo dos bichos: as asas do beija-flor são incrivelmente velozes, mas tanta rapidez serve para faze-lo parar no ar e não para chegar mais depressa, o que deixa expostas as vísceras da ansiedade humana para consumo dos micróbios. A mosca varejeira é ainda mais rápida: consegue ficar estática no ar, mas se desloca tão repentinamente que aos olhos humanos é impossível segui-la. Deixa-se descobrir de novo, em seu novo espaço de ficar, pelo som das asas supersônicas. A borboleta leva longo e rigoroso processo para ser e não entra por janela se o cômodo tiver menos luz que o dia. O urubu e o gavião agitam as asas o mínimo necessário para corrigir o rumo e manter-se planando nas térmicas, espiral invisível para subir ao céu. Não há pressa sequer para garantir a sobrevivência.

Um moço que gosta de voar com asas de metal me disse certa vez ter encontrado nas alturas um urubu com o pescoço encolhido e olhos fechados. Dormia! Outra vez, eu mesmo vi, no Cânion do Itaimbezinho, Rio Grande do Sul, um urubu completamente imóvel entre os paredões de rocha, por longo tempo equilibrando-se à perfeição sobre a térmica. Por certo, não buscava alimento. Na natureza, os bichos e as plantas têm seu próprio tempo, regidos por uma sabedoria que nos escapa. A pessoa entra nesse fluxo quando está curada da pressa e dos apegos.

É, pois, sagrado o tempo usado para observar nuvens no céu antes da chegada do primeiro julgamento. Nesse intervalo de pura contemplação a beleza é por completo, sem explicação, e a pessoa é com ela. O tempo da presença não aceita pensamento nem qualquer bagagem, só mesmo quem observa e do jeito que veio ao mundo – o ser agora, antes da infância e depois da maturidade. Pode durar poucos segundos, mas é passível de alongamento por exercício da vontade. Como quem decide com firmeza passar um tempo sozinho com Deus. Para além desses intervalos de contemplação, os olhos humanos estragam o que veem, envelhecem qualquer coisa ou pessoa por vício de comparação do novo com o já visto. E, assim, a descoberta já vai dormir sua primeira noite no baú de antiguidades.

Parece que a vida é uma sucessão de oportunidades perdidas, mas não. Ao contrário, esses momentos tantos, engolidos pelo olhar que chega de ontem, fazem parte da existência, assim como o rio passa suas águas pelo meu quintal sem nunca mais voltar. É essa passagem lenta e ininterrupta que interessa, os mistérios embarcados em canoa sem necessidade de remo. A dinâmica da cura.

Se o olhar é baço deve ser purificado, se uma dor paralisa o movimento é que pede atenção, se tudo dá errado pode ser necessidade de desapego. Se a alegria abana a mão lá do meio das águas, sinal de que a alma ficou mais letrada. Desconfio que o tempo do autoconhecimento é exatamente a conjugação do viver, o que dá sentido ao verbo: sabendo-me, conheço melhor tudo o que vive.

Não é tarefa simples. Uma janela com uma folha fechada subtrai metade da paisagem. Da mesma forma, o medo, a raiva, as certezas que adquiri e enfiei no meu balaio de inutilidades, as referências que tenho sobre mim mesmo. Qualquer coisa que tende a se cristalizar dentro de mim é meia janela que se fecha. Tudo continua acontecendo, mas deixa de ser visto completamente. O tempo às vezes empossa, parece atrasar a vida, serve ração ao desânimo. Mero engano. As águas se acumulam não por falta de caminho, mas para transbordar. Leva o tempo suficiente para curar, esse tempo que não nos pertence, não pode ser planejado, muito menos encolhido.

Lembro de minha mãe e a demência que a fez desaparecer diante de nossos olhos, deixando para trás apenas seu corpo cansado. Viveu mais de 20 anos sob o diagnóstico de Alzheimer. No início, quando foi virando pessoa diferente, sacolejada assustadoramente e sem trégua pelas alucinações, acreditamos que não valeria à pena tanto sofrimento. Comparávamos o seu tormento com a pessoa alegre que foi. Não havia entre os seus filhos ninguém que já soubesse esperar. A borrasca passou, ela foi emudecendo e vieram longos anos de silêncio. Acredito, por inspiração ou mera esperança, que ela, livre da rotina e das repetições, inutilizados os ganchos de pendurar impossibilidades, teve tempo para dar voo às suas asas. Até conseguir pousar em antigas paisagens com as cores novas que sua alma aprendeu a vestir. Desconfio que não seja imaginação minha e de minhas irmãs, a julgar pela leveza repentina de nossas mãos para os gestos habituais. A demência de minha mãe muito nos ensinou. Tudo aconteceu no tempo dela e no tempo de sua prole. No meio disso tudo, a alegria abanou suas mãos lá do meio da correnteza.

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Enquanto respiro, um súbito e fugaz livramento ensina que até mesmo uma roupa dependurada no varal ao sabor do vento insinua algo a ser desvelado, o azul do céu pode ganhar improvável e suave coloração rosa em pleno meio-dia, é possível que o perfume de um jasmim inexistente invada minhas narinas. A beleza diluindo a separação da pele, a gente misturada ao que existe, o visível e o invisível. Sim, a vida é dura e difícil, mas há um voo preso entre as minhas costelas. De liberta-lo trata o tempo.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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