Chico Mendonça
Chico Mendonça
Chico Mendonça é jornalista (formado pela PUCMG em 1981), consultor de comunicação e escritor. São de sua autoria os livros "As Horas Esquecidas" (finalista do Prêmio Jabuti de 2018, com várias crônicas e contos publicadas no portal UAI) e o romance "A Vi
CHICO MENDONÇA

Quase silêncio

Sobre o hábito de naturalizar tragédias e deixar que nos levem tudo sem que um pio seja dado

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O mundo já esteve assim outras vezes, acabrunhado, completamente desarrumado, feito um mendigo cósmico perambulando entre as estrelas, um sonâmbulo vagando em elipse em torno do sol. Foram muitas as vezes em que estivemos na véspera do fim do mundo. Uma infinidade de cruzes sinalizam as curvas à beira dos precipícios em que nos debruçamos. Mundo, vasto mundo, ainda encontraremos solução?

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A memória desses momentos ficou ricamente documentada. As testemunhas e as vítimas das catástrofes registraram o que viram e viveram em músicas, livros e filmes. Ergueram monumentos, batizaram ruas e avenidas para que ninguém esquecesse o que passou. A diferença agora, ainda caminhando pelas ruas do presente, é o quase silêncio.

A resposta aos nossos males é um pobre enfrentamento de versões, vencendo a peleja o lado que construir os melhores argumentos, mesmo que à custa de invencionices de inteligência artificial. Assim vamos construindo o relato de nossa passagem pelo planeta à revelia da realidade – um punhado de inconsistências, uma coleção de vazios. Remendos insuficientes para esconder nossas vergonhas. “Vamos aos fatos”, se dizia antigamente. Não temos ido. Naturalizamos as tragédias como parte da paisagem.

Quem escreverá nossa história para o futuro? Certamente, uma vez mais, os vencedores, mas diga, em havendo ainda livrarias em futuro próximo, quem pagaria um vintém por um livro de memórias de Donald Trump, supondo-se seja ele a levar o troféu? Se você respondeu “ninguém”, perdeu a chance de ganhar muitos compartilhamentos.

Os livros do presidente americano vendem mais que bolinhos quentes, como vangloriou-se certa vez outro grande manipulador dos fatos, Jânio Quadros – “aquele que foi sem nunca ter sido”. O campeão de vendas de Trump, listado entre os mais vendidos pelo New York Times, com mais de um milhão de cópias comercializadas, é justamente “A Arte da Negociação”. Como se vê, blefar e mentir estão em alta.

Esse esfumaçado planeta sabe bem o que isso significa. Com 4,5 bilhões de anos de idade, a Terra nos tem como inquilinos há 300 mil anos, ou 0,007% de sua história. E que estrago! Em lugar de “parem as máquinas!”, o grito mais alto que se ouviu, em referência à degradação ambiental e à crise climática, foi de Trump: “We will drill, baby, drill” (“Vamos perfurar para valer”, em livre tradução).

Contra a insanidade já não há argumentos. Ninguém – e aqui foi ninguém mesmo – se assustou quando Oxford University Press anunciou a expressão do ano de 2024: “brain rot”, traduzido como “cérebro podre”, para se referir às milhões de pessoas que passam horas maratonando conteúdos sem valor, navegando sem rumo na internet. O que se poderia esperar de um exército de sonâmbulos senão a naturalização da tragédia? A resposta é óbvia e não valeria um compartilhamento sequer.

Em 2025, ainda segundo Oxford, a expressão que melhor traduziu o comportamento humano no período foi “rage bait”, ou “isca de raiva” em tradução livre. Diz respeito a conteúdos estrategicamente criados nas redes sociais para provocar raiva e, assim, gerar engajamento e aumentar as visualizações. Dá para ouvir o tilintar das moedas no caixa das big-techs.

Dá também para entender por que sobrevivem nas redes sociais os grupos de extrema violência criados por adolescentes. De acordo com os dados disponíveis, esses jovens vivem em famílias desfuncionais, em comunicação precária com os pais, vítimas de bullying nas escolas e com alta exposição à telinha dos celulares. Ainda em idade de crescimento e de construção de suas identidades, chegam em casa calados, se alimentam e trancam-se nos seus quartos. São meninos e meninas quase invisíveis os que atravessam o marco da porta. São monstros os que fecham a porta do outro lado.

Adotam ideologias totalitárias – são neonazistas, racistas, misóginos - sem qualquer fundamentação. Apenas porque elas propõem explicações fáceis para a complexidade dos seus problemas: é tudo culpa dos negros, dos judeus ou das mulheres. Desprezados no mundo real, sentem-se reconhecidos e empoderados no cibermundo. São capazes de induzir outros adolescentes e crianças à automutilação, praticam tortura de animais, incentivam o suicídio e o assassinato. Quando cometem o extermínio, de si próprios ou de colegas, são reconhecidos por “santos” nesses grupos acolhidos pelo Telegram, Discord, Instagram, X e Tiktok. Tudo acontece enquanto dormimos.

O procurador de justiça Fábio Costa Pereira, que coordena um Núcleo de Prevenção à Violência Extrema no Rio Grande do Sul, relatou em entrevista à jornalista Luciana Garbin, do Estadão, em 27 de maio do ano passado, que várias vezes bastou a demonstração de interesse e acolhimento, bastou a disposição de ouvir, para tirar adolescentes desses grupos de violência e dar início ao acompanhamento terapêutico e social.

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E, assim, vamos levando a vida enquanto o ladrão sai pela porta da frente carregando nossas vidas, nossos filhos, nossos valores, nossa consciência. Não haverá um monumento em praça pública sobre a atual experiência humana nesse belo planeta enquanto não for produzido algo digno de ser lembrado.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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