Carlos Starling
Carlos Starling
SAÚDE em evidência

O peixe vivo

O ofício do estadista é o mesmo do médico: devolver cada peixe a sua água

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Ainda impactado pela visita ao memorial JK, recebi essa semana do meu amigo Paulo Pimenta o discurso que Juscelino proferiu em Belo Horizonte, em junho de 1958, momento em que eu, aos cinco meses, ainda sugava vorazmente o peito da minha mãe. Tive a impressão de estar diante não de um documento de economia, mas de um prontuário. Um prontuário caprichado, dos que já não se fazem, com letra legível e raciocínio clínico impecável. Concluí, com algum atraso, que JK nunca deixou de ser médico: apenas trocou de paciente. Deu alta para os pacientes da linha de frente de Passa Quatro para tratar de um doente maior, febril e esperançoso, chamado Brasil.

Vejam como ele procede. Primeiro, a anamnese: o país queixa-se de uma “revolução das expectativas crescentes” — nome elegante que se dava ao que minha avó chamaria de olho grande, e ao que nós, infectologistas, chamaríamos de estado febril. O doente descobriu que a pobreza não era destino, e a descoberta lhe subiu à cabeça como febre de dengue. Febre necessária, que significa que o hospedeiro está vivo e rejeita o parasitismo imperialista.

Depois, o exame físico. JK palpa a economia e encontra o sinal patognomônico: o círculo vicioso. Renda exígua não permite poupança; sem poupança, não há investimento; sem investimento, a renda continua exígua. Qualquer colega reconhece o quadro: infecção crônica, em que o organismo debilitado não monta defesa. O paciente com baixa imunidade — quer dizer, capital — e ainda gasta a pouca que tem imitando o consumo dos países ricos, seduzido pelo cinema, pelo rádio, pela imprensa. Hoje diríamos: pelo aplicativo e a ilusão das redes sociais. A doença mudou de vetor, não de mecanismo.

Feito o diagnóstico, a prescrição. E aqui o doutor Juscelino escandaliza os colegas de congresso: receita Estado. Estado em dose de ataque, intravenoso, nos setores de energia, transporte, educação e saúde. E antes que alguém gritasse “estatismo!”, ele explica, com a paciência de quem já atendeu muito acompanhante nervoso: não se trata de preferência ideológica, mas de “simples imperativo de circunstâncias”. Ou seja: não receito o antibiótico por paixão ao antibiótico; receito porque o doente está séptico, e chá de camomila, não resolve sepse.

Conheço o argumento contrário, que atravessou sete décadas sem envelhecer uma ruga: o de que o mercado, deixado em paz, cura tudo. É uma bela teoria, como é bela a teoria de que o corpo se cura sozinho. Às vezes cura mesmo. Mas todo médico já viu o que acontece quando se espera demais pela cura espontânea, e é por isso que existem UTIs — e existiu, no tempo dele, o Programa de Metas: uma UTI de país, monitores ligados em energia, transporte, indústria de base e uma capital inteira nascendo no cerrado, como criança prematura que vingou.

Se JK examinasse o doente hoje, porém, encontraria no prontuário uma queixa que em 1958 mal figurava: a violência. Ela se instalou no organismo nacional como infecção oportunista — dessas que se aproveitam do hospedeiro debilitado pela desigualdade e pela ausência. Tem epidemiologia de doença endêmica: mata mais os jovens, os pobres, os negros, os que moram no asfalto e longe dele; poupa quem pode pagar o isolamento dos lares cercados por grades e segurança armada.
Nem estes. E nós a tratamos como se trata mal uma infecção: só o sintoma, nunca o foco. JK, que sabia não se debelar epidemia sem sanear o terreno, não confundiria uma coisa com a outra.

O que mais me comove no discurso, porém, não é a firmeza do receituário. É a humildade da conduta. Juscelino dizia — e a frase merece moldura: “Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro". É a definição mais mineira que conheço de boa prática clínica. O mau médico casa-se com a própria prescrição e vai com ela, fiel, até o velório do paciente. O bom médico revê a conduta quando a febre não cede, troca o esquema quando a cultura revela outro germe. Eu gostaria de ver essa frase emoldurada em cada programa de governo dos candidatos às próximas eleições.

Curiosamente, o Brasil de 2026 ainda discute se o Estado deve ou não estar presente na economia — como se discutisse se o médico deve ou não estar presente na enfermaria. A resposta de JK era de uma sensatez e simplicidade franciscana: depende do doente, da fase, da gravidade. Nos organismos maduros, o Estado se recolhe como cirurgião depois da alta; nos convalescentes permanece de plantão. O que não pode é o plantonista abandonar o hospital de madrugada alegando que, na Suíça, os hospitais funcionam sozinhos.

E havia, além da técnica, a música. JK tinha por hino de estimação uma moda do nosso cancioneiro, a que pergunta, com falsa ingenuidade, como pode o peixe vivo viver fora da água fria. Pergunta de catecismo que é, no fundo, aula de fisiologia: nenhum organismo sobrevive fora do seu meio. Povo sem escola, sem hospital, sem trabalho é peixe em terra seca — debate-se, reluz, e há quem ache bonito o brilho sem notar a agonia. Ele próprio, cassado e exilado, provou dessa seca. O ofício do estadista é o mesmo do médico: devolver cada peixe a sua água.

Termino a leitura e fico de bobeira, olhando pela janela — coisa que cronista faz quando fisga o seu peixe, mas se enrosca na conclusão. Lá fora, um ipê amarelo explode em flor se destacando na paisagem — iniciativa privada da melhor qualidade, diga-se. Mas floresce porque alguém, um dia, plantou a muda, calçou a rua, trouxe a água — sempre a água, sem a qual não vive peixe nem país. Desenvolvimento é isso: a flor é do ipê, mas o canteiro é de todos nós.

Juscelino sabia. E, como bom médico, sabia também que país, igual a doente, não sara por decreto nem por abandono — sara por cuidado, sensibilidade e carinho. O resto é evolução do quadro. E o quadro, meus caros, ainda inspira cuidados. Parasitas golpistas ainda espreitam as veias que drenam para o coração do poder. O Brasil e Brasília, esta filha dileta de JK, estão novamente à mercê da consciência e do voto de cada um de nós. Ainda bem que depende só de nós.

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