As flechas
No dia de São Sebastião, publico mais uma crônica. Já caminho para 7 anos frequentando os quatro cantos deste Estado de Minas
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SIGA NOHoje é dia de São Sebastião. Não escolhi a data; ela me escolheu, como escolhem certas doenças raras e alguns amores improváveis. Desde então, carrego a suspeita íntima de que envelhecer é uma forma educada de ser atravessado por flechas invisíveis, sem direito a anestesia. A diferença é que, ao contrário do santo, sobrevivi a todas até aqui, ainda que com pequenos sangramentos de vaidade e umas cicatrizes mal disfarçadas de experiência.
São Sebastião sempre me pareceu um mártir excessivamente jovem para tanto furo. Um corpo bonito, alvo fácil, exposto à pedagogia cruel das flechas. Talvez por isso eu tenha escrito, anos atrás, sobre as flechas dele como quem escreve sobre as próprias: as que acertam o tempo, as que erram o endereço, as que vêm por engano e as que chegam com ar de sentença, mas sem assinatura. Hoje, reconheço: as flechas não param de vir; apenas mudam de pena e de arqueiro, sujeito invisível, que raramente erra o tendão de Aquiles.
Quando jovem, temi as flechas do fracasso. Depois, as do sucesso, que ferem mais fundo porque exigem manutenção. Vieram as flechas da pressa, que me fizeram médico antes de me fazerem gente; as flechas do silêncio, que me ensinaram a escutar mais do que falar (coisa própria de mineiro); e as flechas da palavra, que doem porque ficam. A crônica, aprendi tarde, é um projétil de retorno: a gente lança achando que vai acertar o mundo e acaba perfurando o próprio dedão do pé.
Completar 68 anos é admitir que o alvo agora se move menos — e, por isso mesmo, é mais difícil acertá-lo. O corpo, esse velho conhecido, tornou-se um mapa com avisos em letras miúdas. A memória faz triagem, como pronto-socorro em dia de greve. O espelho, sempre irônico, insiste em devolver um rosto que se parece comigo, mas não sou eu. É um primo distante, desses que aparecem em velório e contam histórias que eu preferia esquecer.
O tempo, descobri, não passa por nós: ele nos atravessa. Não caminha em linha reta; faz curvas, atalhos e retornos. Às vezes se acumula em dobras, como lençol mal esticado; outras, escorre pelos cantos sem pedir licença. Lembro-me de um filósofo antigo que dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio. Concordo, mas acrescento: o rio também não entra duas vezes na mesma pessoa. A água muda; o corpo, também. E o espanto, se a gente cuida bem, sobrevive.
A mitologia sempre desconfiou do tempo. Cronos, por exemplo, resolveu devorar os próprios filhos para não ser destronado por eles. Não deu certo. O tempo que tenta engolir tudo acaba cuspindo o inesperado. Já Sísifo empurra a pedra sabendo que ela cairá. O castigo, talvez, não seja a queda, mas a consciência repetida do esforço. Ainda assim, há quem diga que Sísifo foi feliz em algum momento do trajeto. Hoje, 20 de janeiro de 2026, compreendo: felicidade não é chegar ao topo; é aprender a empurrar a pedra sem perder o humor.
Há também Ícaro, que voou alto demais e pagou o preço da soberba. Eu, ave de rapina que sou, sempre temi voar baixo demais e não sair do chão. Entre a queda espetacular e o passo curto, escolhi pedalar. O tempo gosta dos ciclistas: dá-lhes histórias, algumas medalhas e boas mentiras. E boas histórias, convenhamos, duram mais do que mentiras e troféus.
Há quem diga que a idade traz sabedoria. Discordo com a autoridade de quem já confundiu prudência com medo e cautela com preguiça. A idade traz, isso sim, uma coleção respeitável de autocríticas. Descobri que errei mais quando tinha certeza; acertei mais quando duvidei. E que a ironia — essa flecha mineira, de ponta fina — é o único antídoto conhecido contra a solenidade, doença grave que não consta nos manuais, mas mata a alegria com eficiência.
No dia de São Sebastião, publico mais uma crônica. Já caminho para 7 anos frequentando os quatro cantos deste Estado de Minas. Já são quase trezentas crônicas tomando seu tempo para lê-las, mas servindo também para embrulhar bananas na feira e enxugando o xixi do seu pet. O jornal sai, o santo resiste, e eu sigo em frente. Há nisso uma geometria curiosa: escrevo para não virar estátua, faço aniversário para não virar nota de rodapé, e celebro o santo para lembrar que a vida, mesmo atravessada por milhares de flechas, continua de pé. Se há martírio, que seja com humor; se há flechas, que sejam de palavras; se há alvo, que seja móvel, para me obrigar a continuar mirando.
Não peço proteção ao santo, tomo uma para celebra-lo e ajustar a pontaria. Que eu saiba errar com elegância, acertar com humildade e rir de mim mesmo antes que o mundo o faça — porque fará. Que as flechas que ainda virão tragam menos dor e mais história. E que, se alguma me atingir em cheio, ao menos renda uma boa crônica, dessas que não curam nada, mas aliviam quase tudo.
Hoje, mais que nunca, descubro que a alegria é um músculo discreto: se não exercitado, atrofia. Por isso escrevo. Por isso celebro. Por isso agradeço ao tempo, ao arqueiro e às flechas. Eles me ensinaram a caminhar com cuidado, a olhar de lado, a desconfiar das certezas e a amar o intervalo entre um disparo e outro. No fundo, viver é isso: atravessar o campo aberto com dignidade suficiente para chegar inteiro ao fim da batalha — ainda que, vez ou outra, com uma pena espetada no ombro, um pensamento antigo na cabeça e um sorriso torto no rosto. Viva São Sebastião!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
