Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
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Flávio Bolsonaro resistirá a Vorcaro?

Anunciado pelo pai Jair Bolsonaro em dezembro como o seu "herdeiro político", Flávio Bolsonaro, candidato do campo bolsonarista, parecia viver o seu bom momento

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Até que vazassem áudios do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedindo ao “irmão” Daniel Vorcaro recursos para custear o filme “Dark Horse”, eram os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que centralizaram o imaginário popular de tráfico de influência e relações suspeitas associadas ao Banco Master. Em meio ao contrato com o Banco Master de R$ 129 milhões do escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes e as menções ao ministro Dias Toffoli em mensagens do banqueiro sobre negociações para a venda de um resort, a oposição bolsonarista ganhou força em seu embate com a Alta Corte. Com uma bem articulada narrativa nas redes sociais – e campanhas pelo impeachment de ministros– vinha conseguindo também desgastar o governo Lula, pela suposta “proximidade política” com Alexandre de Moraes.

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Anunciado pelo pai Jair Bolsonaro em dezembro como o seu “herdeiro político”, Flávio Bolsonaro, candidato ao Palácio do Planalto, parecia viver o seu bom momento. Surfava nas pesquisas de intenção de voto, mostrando-se competitivo e em situação de empate técnico com o presidente Lula (PT). A expectativa de poder já lhe rendia, no meio político, a provável aliança formal com a Federação União Progressista, que até dezembro de 2025 dava sinais de que se manteria neutra. A elite financeira e produtiva do país estava animada. Flávio se apresentava como um “Bolsonaro moderado” – daqueles que nem briga com as vacinas.

Um certo cansaço com o governo Lula, colocava Flávio Bolsonaro em evidência, numa polarização que não apresentava espaço para candidaturas alternativas. O clã Bolsonaro estava forte e distribuía os seus filhos, em diferentes estados, para concorrer ao Senado Federal, inclusive enfrentando aliados locais que acreditavam ter a primazia do direito à indicação. O Senado era a meta. O propósito era “enquadrar o STF”. Mas o áudio de Flávio Bolsonaro dirigido a Daniel Vorcaro se abateu como um tsunami sobre o meio político: descontrói a imagem do “moderado pai de família impoluto”. A voz do senador, que antes apontava o dedo para o STF e negava qualquer envolvimento com o Banco Master, agora está ali, em diálogo de surpreendente intimidade, pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro. Há um abalo de imagem que cobrará o seu preço também nas eleições do campo bolsonarista ao Senado Federal, chamando a atenção de eleitores para a contranarrativa: o inferno está cheio de aparentes boas intenções.

Apesar de possível crescimento das candidaturas de terceira via, junto a parcela dos 20% de eleitores antipetistas e a parcela dos 30% de eleitores independentes - nem lulistas, nem bolsonaristas - , se a eleição fosse hoje, ainda que com menor apoio do que teria há um mês, Flávio Bolsonaro chegaria ao segundo turno com Lula. Ele se sustenta em base orgânica que soma entre 12% e 15% do eleitorado, que mantém identidade afetiva com o bolsonarismo. Por isso, tende a não processar (a recusar) informações que lhe trazem desconforto cognitivo. Em outras palavras, também na política o amor é cego.

Se não houver novos elementos explosivos não informados por Flávio Bolsonaro à sua campanha, há espaço para que também parte do grupo de eleitores antipetistas permaneça com Flávio, projetando nele a presença no segundo turno. Contudo, ao alcançar o segundo turno, Flávio Bolsonaro terá menos chance de atrair aqueles eleitores “nem bolsonaristas nem lulistas” – estreita margem que definirá a eleição presidencial: poderão ter se desencantado com a “novidade”, desenvolvendo aversão ao risco. Um áudio como aquele recupera, no fundo da mente, passagens da memória sobre os anos Bolsonaro ofuscadas pela promessa “do rapaz moderado”. que nascia com Flávio. Por tudo isso, o senador segue, menos forte do que estava. Mas segue.

Há um ano, em maio de 2025, o governo Lula encarava as cordas do tablado. A desaprovação alcançava o índice mais alto deste terceiro mandato: 57%. Veio de Eduardo Bolsonaro, nos Estados Unidos, a nova oportunidade ao petista, por sua desastrosa atuação junto ao governo norte-americano contra os interesses econômicos nacionais. A prioridade era favorecer o seu pai. Como numa prova de revezamento, agora foi a vez do “01”.

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A política sempre foi dinâmica. Por sua velocidade de reacomodação e transformação, no passado foi descrita como “nuvens”. No contexto comunicacional da informação em tempo real, sem filtros, e mediada por atores políticos que interagem com as suas bolhas e oferecem o próprio enquadramento e interpretação dos fatos, essas características são elevadas a expoentes extremos. Há ainda muitos celulares a serem perscrutados. Em sua obra "O Mundo como Vontade e Representação", Arthur Schopenhauer registrou em certa passagem, atual mesmo neste contexto da tecnopolítica: "O mundo é a minha representação: aquele que conhece tudo o que existe, e que por isso é o suporte do mundo, não se conhece a si mesmo; conhece apenas um olho que vê, mas não o que é visto."

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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