Gladiadores de chapa marcados para morrer
A política, essa arte de solucionar conflitos sem combates físicos, segue, até a próxima semana, fim da janela para migrações partidárias, em modo caça partido
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[...] Agora, deixadas de lado as diversões, é puro homicídio. Os lutadores não têm nada com que se proteger. Todo o corpo está exposto aos golpes e nenhuma mão se lança em vão. [...] Para que serve a prudência? Para que serve a perícia? Tudo isso não passa de atrasos para a morte." O desabafo de Sêneca era dirigido ao seu amigo íntimo Lucílio, procurador da Sicília e discípulo, a quem transmitia a sabedoria estoica naqueles tempos em que o Imperador Nero, cada vez mais errático e sanguinário, o levara a se retirar da vida pública. Escrita entre os anos 62 e 65 d.C. nesse trecho de “Cartas Morais a Lucílio”, a descrição é de Sêneca, após acompanhar a arena de gladiadores ao meio-dia, horário reservado aos combates sem técnica. Horroriza-o constatar o delírio do público, inebriado pelo sangue e pouco interessado na “arte marcial” de quem combatia. Para Sêneca, a ética do combate não está na vitória sobre o outro. O filósofo romano considerava o combate um treinamento em busca da excelência, em que, vencer um oponente inferior não traz glória, mas vergonha: a luta se torna exibição vazia de crueldade. Sêneca considera ser diante de um adversário superior em talento que o combatente desvenda a sua própria capacidade: “Passaste pela vida sem um adversário; ninguém saberá do que és capaz, nem tu mesmo”.
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A política, essa arte de solucionar conflitos sem combates físicos, segue, até a próxima semana, fim da janela para migrações partidárias, em seu modo “caça partido”. São dias agitados e difíceis para deputados federais, que procuram o destino partidário que possa facilitar a luta campal na segunda fase das campanhas, após a definição das chapas. Das oito trocas já formalizadas na bancada mineira, três foram para o PL: Delegada Ione e Greyce Elias, que eram do Avante, além de dr. Frederico, que era do PRD. Outros tentaram o mesmo destino, mas tiveram a jornada abortada pela resistência principalmente do deputado federal Nikolas Ferreira, que deseja ter o controle ideológico de quem busca “carona” em sua projetada votação. Em 2022, o quociente eleitoral para deputado federal em Minas foi de 210.964 votos. Nikolas obteve 1.492.047: arrastou além de si, outros seis para a Câmara dos Deputados.
Em decorrência do “fator Nikolas”, o PL se tornou nessa janela partidária de 2026 o “sonho de consumo” dos parlamentares da direita que orbita o bolsonarismo. Por uma questão pragmática, observaram que, no pleito de 2022, o último a se eleger nessa legenda foi Marcelo Álvaro Antônio, com minguados 31.025 votos. Por seu turno, as candidaturas eleitas com pior desempenho no Avante, no Podemos, no PSD, no Republicanos, no PDT, na Federação PT-PcdoB e PV e no PP precisaram entre 52 mil e 78 mil votos. Nas demais siglas, a linha de corte variou entre 82 mil a 126 mil.
Até pela atração que o PL exerceu sobre candidatos a deputado federal, na expectativa de que Nikolas pelo menos repita 2022, a linha de corte nessa legenda possivelmente será maior em 4 outubro. Além dos federais que migraram com votação variada entre 52 mil e 110 mil votos, há duas outras candidaturas com votação potencial filiadas ao PL: Fabinho Liderança, ex-deputado federal que obteve 77.604 no último pleito e não se elegeu na chapa do MDB; e Vinicius Diniz, filho do deputado federal Hercílio Diniz (MDB), que não se candidatará, mas legará ao filho as suas bases que lhe garantiram 122.819 votos em 2022.
Além dos três parlamentares que aportaram ao PL, outros cinco já encontraram pouso. O deputado André Janones deixou o Avante para filiar-se à Rede; Weliton Prado, que era do Solidariedade, rumou para o PSD. Bruno Farias seguiu do Avante para o Republicanos. O PP recebeu Pedro Aihara, que era do PRD. E o União acolheu Zé Silva, que era do Solidariedade, agora federado ao PRD. Outras mudanças podem ocorrer, até que se cerre a janela em 3 de abril. No PDT, ainda não foi anunciada a decisão da deputada federal Duda Salabert, que sondava uma provável mudança de legenda. E no PSD, dois deputados federais estudam o melhor destino. Mas partidos políticos disponíveis e em condições de oferecer uma eleição mais fácil são, em 2026, espécie em extinção.
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Cláusula de barreira
Com o fantasma da cláusula de barreira a assombrar dirigentes partidários, nos últimos três anos, a oferta de siglas encolheu, num processo de fusões, incorporações e novas federações. A bancada mineira, que em 2022 saiu das urnas com 16 partidos representados, tem agora 12: o PSC foi incorporado pelo Podemos; o PROS pelo Solidariedade e, este, por seu turno, federou-se ao PRD, partido que nasce pela fusão do Patriota e do PTB. União e PP estão federados. Entre os 12 partidos e federações remanescentes, Avante e a federação PRD-Solidariedade convidaram parlamentares a se retirar para facilitar a composição das chapas que garantam a reeleição dos caciques das duas legendas Luís Tibé e Fred Costa. Enquanto o PL mineiro fecha a porta para novas filiações, a Federação PT-PV-PCdoB da bancada de Minas se manteve estável, de olho nas candidaturas do vereador Pedro Rousseff (PT) e das deputadas estaduais Lohanna (PV) – e possivelmente Bella Gonçalves, que deixa o Psol para se filiar ao PT. Ao fazer o movimento do Psol ao PT, o raciocínio de Bella Gonçalves – parlamentar ideológica – leva a preocupação de construir a unidade do campo democrático, para a sobrevivência programática de um projeto de país que, em sua avaliação, segue ameaçado no contexto da ascensão global da extrema direita.
São tempos de enxugamento partidário e, no caso mineiro, os dois polos que irão se enfrentar na disputa presidencial também tendem a organizar a disputa para a Câmara dos Deputados. Especialistas que acompanham o potencial eleitoral das candidaturas na formação das chapas, projetam, neste momento, as duas grandes bancadas que se opõem ocupando a maior parte das 53 cadeiras que estão em disputa no estado para a Câmara dos Deputados: PL com cerca de 18 deputados federais; e a Federação PT-PV-PcdoB, com 12. Essas projeções consideram que PSD e a Federação União-PP tendem a eleger cinco deputados cada. O Republicanos deverá conquistar três cadeiras, enquanto a Federação Psol-Rede, duas. MDB, a Federação PSDB-Cidadania, PDT, Podemos, Novo, PSB, DC e a Federação PRD-Solidariedade deverão eleger um deputado federal cada. Obviamente, as mudanças na composição das chapas, que ainda vão ocorrer, afetam tais projeções que, neste momento, consideraram, por exemplo, Duda no Psol, o que poderá não se confirmar. A tendência, contudo, seguirá a mesma: redução do número de partidos representados, legendas do centro e da direita moderada de viés pragmático mais esvaziadas em meio à polarização entre PL e Federação PT-PV-PCdoB e partidos aliados da esquerda.
Num ranking de prioridades, a eleição para a Câmara dos Deputados é de longe aquela que mais interessa aos partidos políticos e parlamentares: é o tamanho das bancadas federais que irá determinar a distribuição, pelos próximos quatro anos, do fundo partidário, do fundo eleitoral e do tempo de antena. Para 2026, o fundo eleitoral para financiamento das campanhas e o fundo partidário, representam mais de R$ 6 bilhões. Candidatos a deputado federal sabem que, ao se encerrar o tempo das migrações partidárias, inicia-se o combate entre os gladiadores que também se intitulam “irmãos” de chapa: a competição é interna. Os votos daqueles marcados para morrer impulsionam aqueles desenhados para sobreviver.
É assim que seguirá a campanha eleitoral para deputado federal sob a ética de Sêneca às avessas: o sucesso dos partidos que preservam generais de votos ou das locomotivas da Federação PT-PV-PCdoB é acompanhado do sacrifício silencioso dos gladiadores de chapa. Nela, a arte marcial é substituída pelo cálculo; e, a glória, pela contagem dos corpos que tombam para pavimentar o caminho dos futuros deputados federais.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
