Como se não houvesse amanhã
Quero que meus olhos brilhem com a curiosidade renovada de quem acaba de descobrir o mundo
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Cheguei aos 51 anos e, muitas vezes, tenho me surpreendido com a minha tranquilidade para lidar com questões que, há alguns anos, me tiravam do eixo. A ansiedade me acompanha desde a infância; eu roía as unhas, precisava de recursos de autorregulação, andava carregando uma fralda de pano e passando meus dedos na borda dobrada do tecido, fazendo um movimento específico, como se meus dedinhos fossem um zíper passeando de um lado ao outro.
Deixei de roer as unhas, mas as mordo quando a ansiedade bate mais forte. Só que agora já consigo pensar nos problemas, sabendo que serão resolvidos, como já se resolveram tantos outros ao longo da vida. Essa serenidade é fruto de uma construção interna contínua, um pacto que fiz comigo mesma para não deixar que o ruído externo ensurdeça minha intuição. Entendi que a maturidade não é o fim das dúvidas, mas a aceitação de que nem tudo precisa de uma resposta imediata para que eu possa caminhar em paz.
Não faz muito tempo, me dei conta de que eu não tinha sonhos nem planos - o modo automático esteve ativado. Para evitar a ansiedade, eu não me arriscava. Aos poucos, foram surgindo coisas que me fizeram voltar a querer, e agora eu tenho vontade de viver como se não houvesse amanhã. Colocar os planos em prática, resgatar sonhos esquecidos, correr atrás do prejuízo de quem passou muito tempo esperando o tempo passar.
Tenho muita vida pela frente? É possível: a expectativa de vida vem aumentando, mas eu não quero esperar. Agora tenho uma pressa quase juvenil de obter o máximo de mim. Essa pressa não é desespero, é desejo puro e pulsante por experiências autênticas. É a vontade de experimentar sabores, lugares e afetos com uma intensidade que a juventude, por vezes, desperdiça com a pretensão da imortalidade. Quero que meus olhos brilhem com a curiosidade renovada de quem acaba de descobrir o mundo.
Quando somos crianças o tempo é infinito; agora ele passa rápido demais, e quem espera sempre se cansa. Em algum momento a finitude bate na nossa cara e diz: eu estou aqui, e já tem mais areia na parte inferior da sua ampulheta do que tem na parte de cima. E se não houver amanhã? Terei feito tudo o que me cabia fazer nessa vida? Só tenho 51 anos, mas já perdi muitas amigas mais jovens que eu - umas para o câncer, outras para uma dor que não coube no peito. E se elas ainda estivessem aqui? A finitude, antes um monstro assustador, tornou-se uma conselheira que me lembra de priorizar o que realmente importa. Não há mais espaço para protocolos vazios ou relações que não nutrem a alma; cada conversa agora carrega o peso sagrado da presença absoluta.
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Minha amiga Micho gostava de usar a frase de Benjamin Disraeli: “A vida é muito curta para ser pequena”. Micho não está entre nós há 10 anos; ela teria feito 54 no início de março, mas não teve tempo nem para comemorar os 44, partiu um pouco antes. Deixou um legado, mas não viu seu filho Gabo entrar na adolescência, nem passar no vestibular. Não viu a pandemia da COVID-19, nem acompanhou a polarização política. Um câncer de estômago a levou antes que ela pudesse viver tudo isso.
Aos 44 anos, eu enfrentei um câncer bem menos agressivo; fui mais forte que ele, estou aqui. Antes havia vencido uma crise depressiva, também sobrevivi à vontade de morrer e aprendi a ler os sinais antes de ser tomada por aquela sensação de ter caído em um buraco sem fundo e ser soterrada por toneladas de areia. Quem passa por isso sente uma coisa boa, uma invencibilidade. As coisas apocalípticas surgem, e eu sei que elas não vão me derrubar.
A cicatriz do câncer e as marcas da depressão são hoje meus medalhões de coragem, provas vivas de que a luz sempre encontra uma fresta para entrar. Aprendi a dançar com as sombras sem deixar que elas guiem meus passos, transformando a memória da dor em um combustível potente para a criação e para o autocuidado.
Hoje eu vou para a festa, vou comemorar a vida, as amizades, meus 51 anos, os 15 anos da comunidade que eu criei. Celebrar esse percurso é olhar para trás e ver um jardim que floresceu em solo fértil, regado por trocas genuínas e apoio mútuo entre tantas mulheres que compartilham suas jornadas.
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É reconhecer que a nossa força coletiva é o que sustenta os dias e nos permite seguir em frente com ousadia e leveza. Com essa sensação de urgência, vou viver como se cada dia fosse único, como se não houvesse amanhã. A vida presta, e muito!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
