AQ
Ary Quintella
O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Seu livro "Geografia do tempo" foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti

Machado de Assis, uma vida diplomática

Cada geração precisa de mais biografias das figuras de relevo do passado. As percepções mudam, o conhecimento se aperfeiçoa, descobertas ocorrem

Publicidade

Mais lidas

“Silêncio” é a palavra mais recorrente no primeiro volume da biografia de Machado de Assis por C.S. Soares, “Machado, O Filho do Inverno” (editora Ação, 2025).
Já discutirei o uso do vocábulo, mas antes convém pensar sobre o gênero de obra que é o livro. Se o gosto do leitor é por biografias cronológicas, repletas de detalhes irrelevantes para a compreensão da personalidade do biografado, esse livro não é para ele. Tampouco é uma análise minuciosa das obras de Machado.

Fique por dentro das notícias que importam para você!


C.S. Soares explica o seu propósito no capítulo 8, “O órfão imaginista”, onde também joga um pouco de luz sobre a importância do conceito de “silêncio” no universo machadiano. Esclarece que pouco sabemos sobre a infância do biografado: “As condições socioeconômicas de Machado e sua família ajudam a explicar a escassez documental. Negro, pobre, neto de ex-escravizados, ele pertencia a uma camada que vivia às margens dos instrumentos de preservação oficial, arquivos, retratos, escrituras”.


O mesmo capítulo revela o sentido de “O Filho do Inverno”. Expõe a profissão de fé de C.S. Soares: “Escrever sobre Machado, portanto, é escrever contra esse apagamento” e, ao mesmo tempo, “recusar-se a ser cúmplice da omissão”. O biógrafo de Machado de Assis precisa ser “jardineiro de vestígios”, que “rega raízes invisíveis”.


Uma tônica do livro de C.S. Soares é como tantas das mazelas do Brasil do século XIX explicam o país de hoje e nele se perpetuam. No capítulo 5, avalia que, do século XIX para cá, “a brutalidade contra os corpos negros não cessou, apenas mudou de vestimenta e aperfeiçoou seus instrumentos”. Assim, a “exclusão que moldou o país” explica a lacuna documental em uma sociedade que “marginalizou sistematicamente os corpos negros, as vozes negras, as experiências negras”.


“O Filho do Inverno” não é uma biografia romanceada, embora ocasionalmente o autor descreva cenas como se as tivesse presenciado. O objetivo não é inventar, é “escavar o que sobra, recompor contextos, escutar ecos”. E isso faz C.S. Soares, magistralmente.


Não à toa, mais para o final do livro o autor cita André Maurois, lembrando que o escritor francês “perguntava se a biografia seria uma ciência exata ou uma arte imprecisa”. Estima o biógrafo de Machado de Assis que seja ambas e mais: um “esforço de tradução entre o visível e o oculto”.


Tudo o que aprendi na adolescência sobre Shelley, Byron, George Sand, Victor Hugo, Disraeli — que, além de primeiro-ministro na era vitoriana, foi também romancista — eu o devo às biografias que sobre eles escreveu Maurois. Seu volume sobre Proust, que reli com prazer não faz muitos anos, ficou superado apenas porque desde o lançamento, em 1949, novas cartas foram reveladas, obras vieram a público, a compreensão da gênese e da evolução de “À procura do tempo perdido” se aprimorou. Como mencionei em coluna anterior, “Lendo Proust no Brasil”, os estudos se multiplicaram


Esse é um ponto importante. Cada geração precisa de mais biografias das figuras de relevo do passado. As percepções mudam, o conhecimento se aperfeiçoa, descobertas ocorrem. Sorrio sempre quando leio em uma resenha que determinada biografia sobre uma personalidade histórica é a “definitiva”. Esse é um conceito absurdo. O futuro entenderá aquela pessoa com nuances diferentes das nossas.


“Machado, o Filho do Inverno” é a biografia de Machado de Assis apropriada para esta primeira metade do século XXI. É uma visão pessoal, mas crível, sobre a vida e a personalidade do nosso maior escritor. Insere o biografado no contexto da época, a qual nos faz conhecer melhor.


Esta é uma obra que, além de biográfica, narra a experiência de ler, estudar e escrever sobre Machado de Assis. É um passeio pelas sensações que aprender sobre sua vida pode causar. Coloca-nos frente ao biografado, como se fôssemos seus contemporâneos. Visualizamos os cenários, entendemos os atores, ouvimos os sons, captamos os sentimentos.


A maneira como C.S. Soares apresenta seu material nos faz pensar de forma inovadora sobre Machado. Fatos, ideias que estiveram sempre à nossa disposição, diante de nossos olhos, graças a este livro tomam corpo e se tornam nítidos.


Como diplomata, fiquei impressionado com o que aprendi sobre o interesse de Machado de Assis pela política externa. A Guerra do Paraguai, a execução de Maximiliano no México, atritos entre o Império brasileiro e o Uruguai, a China, a situação da Polônia subjugada pelo Império russo: o olhar desse homem que nunca saiu do Brasil se pousava constantemente sobre o exterior.


C.S. Soares faz bom uso de um artigo publicado na imprensa brasileira em 2024 por Xi Jinping, quando participou no Rio de Janeiro da Cúpula do G20. O líder chinês menciona o simbolismo de Cecília Meireles e Machado de Assis terem traduzido poemas da dinastia Tang, indicando “uma sinfonia mental que conecta os dois países”. Machado, amigo em vida de alguns diplomatas, torna-se assim, postumamente, ele próprio um agente diplomático.


Machado de Assis “aprendeu a ocupar o centro. Não com alarde, mas com gramática. Não com armas, mas com substantivos”. Esta é uma biografia celebratória da influência e da liberdade adquiridas pela leitura, a escrita, a instrução. Com uma pena, pode-se vencer a exclusão. O silêncio, assim, torna-se “método”. Pode-se dizer mais por meio de um romance, uma crônica, um conto, do que vociferando em praça pública: “o silêncio é uma forma superior de dizer”.


Na altura em que “Machado, o Filho do Inverno” termina, acaba de ser publicado “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Impacientemente, fico me perguntando como C.S. Soares abordará, no segundo volume, os anos de glória, a abolição da escravidão, a queda do Império, a fundação da Academia Brasileira de Letras, a morte de Carolina e o fim do próprio escritor.


Uma vez mais surgirão, pela sua mão, novas percepções e uma nova compreensão.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Seu livro “Geografia do tempo” foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

machado-de-assis

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay