Anna Marina*
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MEMÓRIAS

O novo Tratado de Tordesilhas

A divertida noite que Roberto Drummond, João Ubaldo Ribeiro, eu e Alexandre Salles passamos na chuvosa Juiz de Fora

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Continuo a relembrar minha viagem a Juiz de Fora com o escritor e jornalista Roberto Drummond, amigo querido que partiu em 2002, e o músico Alexandre Salles. Ontem, contei que no evento literário naquela cidade, Roberto me fez passar por repórter do New York Times em visita ao Brasil.

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Pois bem. Quando fomos para o hotel após o evento, não tinha lugar para mim. A solução foi ficar no quarto com o Roberto, que recorreu ao escritor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) para receber o Alexandre Salles como hóspede naquela noite.

Para que o leitor entenda, eu tinha 21 anos, nunca havia dormido com homem algum. Sou crente, e já era naquela época. Estava prestes a dividir a cama de casal com um colega de trabalho casado, que tinha fama de sedutor. Estava completamente apavorada.

Entrei no banheiro, vesti camisola e robe, coloquei minha Bíblia debaixo do braço e sentei na cama. Roberto também colocou seu pijama no banheiro. Quando pensamos que iríamos dormir, bateram na porta.

Alexandre e João Ubaldo entraram, riram muito ao verem a cena – eu recostada na cama com a Bíblia aberta – e tiraram o maior sarro. Fizeram “trocentas” piadas com o Roberto e, depois de esgotarem o repertório de provocações, começaram a bater o maior papo. Tenho de confessar que foi bom, porque quebrou o clima tenso.

João era simpático e engraçadíssimo. Resolveu nos contar, com riqueza de detalhes, sobre o dia em que conheceu Sônia Braga e conseguiu ter uma tórrida noite de amor com ela. Rimos muito. Se era verdade ou mais um de seus contos romanceados, nunca saberemos.

Os rapazes saíram depois da fracassada tentativa de troca de parceiros, e de Roberto expulsá-los quase a pontapés, pois já era alta madrugada. Eu continuava preocupada em como me resguardar naquela “perigosa” e constrangedora noite.

Foi quando tive uma ideia. Peguei as toalhas, enrolei e coloquei-as no meio da cama, de comprido, fazendo uma barreira, que, na minha cabeça, era intransponível. Determinei com voz firme, em alto e bom som: “Este é o novo Tratado de Tordesilhas. Se você avançar um milímetro para o meu território, te jogo no chão”.

Roberto riu muito. Deitamos de costas um para o outro. Luzes apagadas. A chuva continuava a cair. Só não digo que era dilúvio porque Deus prometeu não mandar outro dilúvio à Terra depois daquele na época de Noé.

Raios clareavam o quarto, porque Roberto não havia fechado o blackout da cortina. O som dos trovões deixava claro que ambos fingíamos estar dormindo.

De vez em quando, Roberto caminhava lentamente pelo quarto. Depois, deitava-se novamente. Queria saber o que passava na mente dele.

Amanheceu. Levantamos, e ele falou: “Não vamos contar para ninguém o que aconteceu aqui. Segredo nosso. Vou fazer o Alexandre prometer o mesmo. Se alguém souber, ninguém vai acreditar que não aconteceu nada. Seu pai vai me demitir e minha mulher vai me matar”.

Concordei plenamente.

E ele completou: “Mas vou escrever uma peça chamada 'O novo Tratado de Tordesilhas' e você será a atriz principal”. Rimos muito. Ele nunca escreveu a peça. Sempre que lembrávamos esta viagem, só falávamos: o novo Tratado de Tordesilhas. E caíamos na risada.

Quem estava perto queria saber o que era, mas nunca falamos para ninguém.

Anos mais tarde, quando Roberto Drummond foi trabalhar em outro jornal, escreveu uma crônica com esse título. Já tentei resgatá-la e ainda não consegui, mas não desisti.

Esta história eu contei no encontro, na Savassi, em homenagem ao meu amigo Roberto Drummond. Acho que surpreendi a todos que estavam lá.

Em tempo: esta coluna aqui vai em sua homenagem, Lauro Diniz.

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* Isabela Teixeira da Costa/Interina

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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