Anna Marina*
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ANNA MARINA

As armadilhas que a memória prepara para nós

Neurocientistas descobriram que a memória é um processo. Cada vez que você se lembra de algo, o cérebro não abre uma gaveta, ele reconstrói a cena

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Admiro muito Ricardo Guimarães, oftalmologista, fundador do Hospital de Olhos, grande estudioso e pesquisador. Com sua mulher, a médica oftalmologista Márcia Guimarães, ele vêm há anos aprofundando estudos e pesquisas sobre a visão e o cérebro nas áreas de neurociência e neurovisão. Dr. Ricardo tem escrito textos muito interessantes, com linguagem apropriada para leigos.

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Os dois últimos, sobre a memória, são excelentes e me chamaram a atenção, porque sempre fiquei intrigada com uma coisa. Tenho uma sobrinha que, vez ou outra, conta um caso de sua infância e adolescência, geralmente fatos dos quais participei. Fico assustada, pois os relatos são completamente diferentes da realidade. Depois de ler os textos do dr. Ricardo, comecei a entender o porquê disso.

No primeiro texto, escrito há cerca de 10 dias, ele diz que, durante décadas, tratamos a memória como arquivo. “Uma gaveta organizada onde o passado dorme intocado, esperando ser resgatado na ordem certa. A memória seria o nosso testemunho fiel. A prova de quem somos, de onde viemos, do que vivemos.” Segundo ele, a ciência discorda disso educadamente, mas com firmeza.

Ricardo Guimarães explica que neurocientistas descobriram que a memória não é arquivo. “É um processo. Cada vez que você se lembra de algo, seu cérebro não abre uma gaveta: ele reconstrói a cena. Peça por peça. Com o humor que você está sentindo agora. Com o que você aprendeu desde então. Com os medos que não tinha antes e os que perdeu pelo caminho. Isso tem um nome técnico: reconsolidação.”

O segundo texto, divulgado há cinco dias, começa com um “exercício”. Pede para fecharmos os olhos e nos lembrarmos de coisas que nos aconteceram, como um aniversário quando éramos crianças, nossa formatura, nosso primeiro beijo ou o dia em que o pai nos ensinou a andar de bicicleta.

“Pronto. Você acabou de alterar essa memória. Cada remontagem deixou uma impressão digital. O aniversário de 7 anos de que você jura se lembrar com tanta precisão, você se lembra da lembrança da lembrança da lembrança. Uma fotocópia da fotocópia da fotocópia.”

Ele explica que o cérebro monta a cena com fragmentos reais, mas mistura o humor do dia, o medo que carregamos, as expectativas que não admitimos.

“É montagem. Com cortes. Com trilha. Com iluminação favorável ou cruel. Detalhes inexistentes entram na história com convicção impecável, testemunhas oculares erram de modo previsível, não inventam por maldade, lembram do jeito que o cérebro lembra.”

O Alzheimer é uma ameaça e nos ensinou a desconfiar de qualquer tipo de esquecimento. “Isso gera uma hipocondria cognitiva coletiva. O esquecimento fisiológico, aquele de sempre, vira sinal suspeito”, explica o dr. Ricardo.

Começamos a usar ferramentas tecnológicas como memória. “O celular guarda os números de telefones, o GPS pensa nos trajetos, o calendário lembra aniversários. (…). E agora a IA entra na sala como secretária perfeita: faz ata, resume, lista ações, devolve tudo pronto. Você sai 'produtivo' sem ter processado quase nada. (…) A questão não é se a tecnologia vai nos emburrecer. É: o que você quer manter como habilidade própria?”

Isto aqui é um resumo de tudo de maravilhoso que Ricardo Guimarães aborda. Fica a dica para acompanhar seu trabalho no Linkedin.

Para terminar, algo que ele escreveu e eu amei: “A IA pode lembrar da sua reunião. O Google pode guardar o endereço. Mas escolher o que merece permanecer como seu, e dar forma a isso, ainda é tarefa humana.”

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* Isabela Teixeira da Costa/Interina

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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